No dia 27 de Julho de 2006, morre aos 64 anos durante uma viagem a Ouro Preto MG, o maior estudioso e pesquisador brasileiro da Literatura de Cordel: Prof. Joseph M. Luyten.
Nascido na Holanda emigrou ao Brasil em 1952 em companhia da familia e com idade de 11 anos. Desde pequeno sofria de miopia o que o obrigava a usar óculos corretivos e naquele tempo o prognóstico era "cegueira dentro de alguns anos". A "cegueira anunciada", fez com que se tornasse um leitor voraz e compulsivo, como se quizesse absorver, conhecer, viajar o máximo possivel antes da desgraça chegar.
Graças a Deus a miopia estabilizou e a cegueira não se instalou, mas o hábito da leitura e viagens já se tinham tornado hábitos que o acompanharam até a morte.
O dinheiro para estudar, comprar livros e viagens era muito escasso, e para "driblar" a situação tornou-se um excelente bolsista, frequentador de bibliotecas e um eximio caronista. As viagens pelo Brasil se tornaram cada vez mais distantes e sem dúvida tudo isto influenciou a sua vocação para a literatura de cordel.
Como professor era competente, severo e acima de tudo justo para com os alunos. Conta o nosso amigo JAL (cartunista de destaque em São Paulo) que quando aluno do Prof. Luyten na Faculdade FIAM, o mesmo foi despedido e transferiu-se para a Casper Líbero. Tôda a classe ao saber do ocorrido pediu transferência e acompanhou o professor para a nova faculdade. Ele era carismático e varias vezes a aula terminava regada a pizza e cerveja no restaurante ao lado.
Tratava a todos com distinção e com o mesmo carinho e respeito. Na praça da República aos domingos, todos os artistas de pintura primitiva e cordelistas eram seus amigos e disputavam a sua presença para apresentar as obras.
Muitas teses de doutorado foram orientadas pelo Prof. Joseph em São Paulo, deixou varios livros escritos e viajou por cerca de 30 países pelo mundo divulgando o cordel.
Deixo abaixo as últimas frases que o Prof. Luyten escreveu ao rascunhar suas memorias incompletas:
. . Naquela viagem que Sócrates e eu fizemos em março/abril de 1964, houve uma passagem da qual nunca mais pude me esquecer. Estávamos a pé indo da cidade de Sombrio – SC para Torres – RS. Chovia a cântaros. Nossas sardinhas já tinham terminado e uma das poucas coisas que sobrara era um saquinho de sopa daquelas que só precisavam de água e fervura. O vigário de Sombrio, a quem tínhamos pedido pousada, nos expulsara pois, uma vez que ambos éramos barbudos, como Fidel Castro, "só poderíamos ser comunistas". Sócrates, não sei como, pegara um forte resfriado que ameaçava virar pneumonia. Naquela época, a rodovia que liga os dois estados sulinos pela região costeira já estava traçada mas não asfaltada de modo que chapinhávamos pela lama. Passamos por um posto de gasolina e conseguimos licença para usar nosso fogareiro (bem longe das bombas, é lógico) a fim de esquentar a sopa. A fome era grande e terminei a minha parte num instante. Sócrates, porém, assim que conseguiu engolir a sua metade, vomitou tudo e eu fiquei olhando para aquilo, esquecendo-me do sofrimento do amigo, mas com uma dó danada pela comida que podia ter sido somente minha.
Continuamos andando pela lama e a escuridão já nos cercava. De repente, apareceu uma espécie de carroça semicoberta e alguém nos perguntou se queríamos uma "carona". Acabamos chegando à cabana do caboclo. Já era noite cerrada e meu companheiro de viagem deixou-se cair num canto e ficou dormindo em cima de sua mochila. Não havia luz elétrica. Só uma lamparina de querosene conhecido como fifó. A mulher do caboclo preparou um pouco de feijão com farinha de milho e eu devorei tudo prontamente. Depois veio o calor do fogão de lenha e minhas roupas foram secando no próprio corpo. A conversa logo desatou. O casal era extremamente curioso e queria saber tudo a nosso respeito. Perguntaram até sobre uma tal de "reforma agrária" que provavelmente jamais viria (o que infelizmente se confirmou). Aí foi minha vez de perguntar sua a vida deles. Contaram-me que eram "meeiros", portanto, trabalhando em terra alheia e que deviam dar sempre a metade de toda colheita para o dono da propriedade. "Mas", dizia a mulherzinha, "acho que o patrão sempre nos engana pois eu somente sei fazer contas usando pedrinhas."
Eles não sabiam escrever as letras do alfabeto mas conheciam os dígitos. Fazer contas, porém, por escrito era algo que só lhes passava por sonho. Resolvi, então, ensinar-lhes a somar. Sacrifiquei várias páginas de meu caderno de poesias e iniciei a aula. Primeiro as unidades, depois as dezenas e, por fim, centenas. Mais não seria necessário. O caboclo, de tanta dificuldade, esfregava os olhos mas a esposa seguia tudo atentamente e, após uma hora e tanto, conseguia fazer as contas sem enganos. Logo mais, com seu linguajar típico e abreviado, fez ver ao marido os mistérios da aritmética que acabara de conhecer. Foi uma alegria só. Dei-lhes mais algumas folhas do meu caderno e coloquei uma série de exercícios para fazer enquanto eu iria dormir pois estava exausto da longa caminhada. Pedi-lhes que nos acordassem de madrugada pois tínhamos ainda muito chão até chegar ao estado do Rio Grande do Sul. Dormi como um justo mas, quando acordei, o sol já estava alto. Sócrates continuava como tinha se posicionado na véspera. A cabocla estava sozinha e ativamente rabiscando números em umas folhas do tipo de embrulhar pão. Fiquei indignado e perguntei por que não nos tinha acordado cedo como eu pedira e onde estava seu marido. "Ele foi para o povoado", disse ela, "foi comprar um pouco de carne para seu amigo que está muito fraco. Além disso, a gente queria que vocês ficassem um pouco mais aqui para ver se a gente conseguisse aprender a subtrair e a multiplicar, também."
Eu estava preocupado com o avanço de nossa viagem. Além do mais, em Torres poderia haver alguma alma boa que nos fornecesse algum remédio para o Sócrates. Infelizmente, o meu egoísmo falou mais alto. Acordei o companheiro, não esperamos pelo caboclo e fomos saindo a pé pela estrada lamacenta, felizmente, agora sem chuva. Prometi, porém, solenemente, que logo voltaria para lhes ensinar a subtrair e a multiplicar. Dei minha palavra de honra à mulherzinha mas, quando voltamos do sul, conseguimos uma carona de caminhão e fomos por outra estrada. Anos depois, tentei por várias vezes reencontrar aqueles caboclos de Sombrio. Cheguei a parar o ônibus em que me encontrava e interrompi várias passeios para a região. Nunca mais pude encontrar os caboclos e sinto-me eternamente culpado por não ter ficado mais um dia na companhia daquela gente tão sequiosa de saber. Hoje, como professor universitário, aborreço-me às vezes com a indiferença dos alunos e lembro-me daquela aula tão desejada que nunca cheguei a dar. . .