Quando era criança e os sapatos lá de casa ficavam "gastos", eram levados para uma "reforma" numa sapataria que ficava na Av. Cangaíba. Não lembro o nome do moço, mas guardo bem o "retrato" do local. Lembrava uma oficina mecânica. Uma porta de garagem estreita e comprida, paredes mal pintadas e algumas partes ainda somente no reboco.
A luminosidade era natural e entrava somente pela porta de entrada e por uma janela de fundos e no alto, um balcão de madeira sem cor definida. Prateleiras espalhadas pelas paredes como vitrine de loja, todas cheias de sapatos de um lado e de outro os acessórios necessários para qualquer tipo de conserto.
O que eu achava mais estranho naquele rapaz é que ele vivia com a boca cheia de tachinhas, usadas antigamente para pregar a sola e as famosas "biqueiras" na ponta do sapato. Acredito que, para não perder no meio daquele emaranhado de objetos, ele colocava aqueles "preguinhos" na lateral esquerda da boca e com o restante da boca livre ele conseguia conversar…
Sempre com o mesmo macacão cinza escuro mesclado de graxa preta e um boné. Minha mãe achava estranho o uso do boné e acreditava que, apesar de moço, deveria existir ali algum indício de calvície prematura… Um profissional "das antigas"!! Depois que mudamos para Guarulhos, soubemos que ele havia morrido de câncer na boca… Acho que não tinha mais que 40 anos!!!
Até hoje me pergunto se as "benditas" tachinhas não contribuíram para o mal que vitimou aquele homem…
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