A horta que meu pai tão bem cuidou

Posso considerar, sem qualquer dúvida, que tive uma infância bastante feliz e repleta de acontecimentos inesquecíveis, ao longo dos anos até mais ou menos meus doze anos de vida. Do mesmo modo como a grande maioria das crianças que nasceram ou que viveram no querido bairro do Ipiranga, então Ypiranga, pois não havia grandes diferenças sociais. De modo geral, os pais eram comerciantes, corretores, prestadores de serviços, motorneiros, cobradores de coletivos, alfaiates, pedreiros etc.

Isso sem olvidar de que, em certas áreas periféricas do Bairro, como a Vila Carioca, São João Clímaco, Vila dos 40, Moinho Velho, Vila Nair e outras, muitos moradores cultivavam suas chácaras e vendiam verduras, galinhas, leitões e até criavam suas vaquinhas que proporcionavam restrita distribuição Láctea. É evidente que essa não era a regra geral, mas prevalecia no sentido de se formar uma liga que unia uma forma de bem viver, ainda que sob a pressão da 2ª Grande Guerra que me tirou muitas noites de sono.

Pensava eu que o país seria invadido pelos alemães, porque meu querido e saudoso pai, vigia no Departamento Nacional do Café, na Rua Vemag, entre a Av. Pres. Wilson e Rua Auriverde, na Vila Carioca, recebeu de seu chefe um livreto de instruções sobre "black-out". Eu sequer sabia o que significa essa palavra a qual cheguei a confundir com o cantor americano. Morava eu no Moinho Velho, na então Rua Dravinha, que depois, por motivo que já expliquei em outro artigo, passou a ser Bravinha.

A rua era mais ou menos deserta, com poucas casas construídas. Sem qualquer infraestrutura ou saneamento, contava apenas com luz elétrica, da Light Power. O único meio de comunicação com o mundo era um pequeno rádio Philco, com uma banda de ondas curtas. O que se ouvia com mais freqüência era os artistas conhecidos como "caipiras": Tonico e Tinoco, além da escolinha do simplício e, como era de rigor, dado o temor reverencial que fora imposto, a Hora do Brasil, que se iniciava com um hino pátrio e passava uma sensação de patriotismo.

Mas, afinal de contas, eu era uma criança na fase da adolescência e pouco me importava a situação política, social e financeira do Brasil. De política nada se entendia naquela idade; de social, não se recebia nada mais do que oportunidade de freqüentar o conhecido Grupo Escolar Professor José Escobar, na curvinha do bonde Fábrica, e situação financeira, vivíamos dos pequenos vencimentos de meu dedicado pai, que logrou passar em concurso público de servidor federal, para o cargo de "guarda de armazém", porque conhecia as quatro operações aritméticas.

Havia necessidade, é lógico, de se engordar o orçamento familiar e essa necessidade era da grande maioria dos moradores do Ipiranga, sempre solidários entre si, na alegria e na tristeza. Não faltava ajuda de vizinhos e de entidades, como por exemplo, o Círculo Social do Ipiranga e dos Vicentinos da Igreja São Vicente de Paula, no Moinho Velho – em cuja vala aberta para o alicerce serviu-me de esconderijo nos pega-pega. Minha família era, por assim dizer, privilegiada, porque meu pai recebia do antigo D.N.C. 1 km de café por semana e da L.B.A., uma cesta básica mensal, porque meu tio era expedicionário da F.E.B. Mas o pós-guerra não foi fácil e contava eu com meus 11 ou 12 anos.

Disse que na rua em que morava minha família, poucas casas havia sido construídas, de modo que, ao lado da minha havia um grande terreno vazio que nos servia de pasto para nossa pequena fornecedora de leite: um belo exemplar caprino que recebeu o nome de "bita", diminutivo de cabrita. Cabia a mim dela cuidar e de desatar os embaraços que a corda que lhe servia de limite territorial trazia com os arbustos do terreno, muito carregado de pés de mamona (que servia de munição para meus estilingues).
"Bita" era exigente e gostava de verdura fresca.

Pelo menos três vezes por semana, aos sábados e domingos, com certeza, eu estava obrigado a levar para o meu pai um almoço bem feito que somente minha pranteada mãe sabia prepara. Seguia eu em direção à Av. Almirante Delamare até chegar próximo ao Frigorífico Ceratti, no Heliópolis. Havia o bonde heliópolis, às vezes por mim utilizado, mas com rigoroso calote, porque dinheiro eu não tinha. No momento em que o cobrador vinha para o estribo em que eu estava eu passava por trás e dirigia-me ao outro e como o percurso era curto, eu lograva êxito e a Light ficava no prejuízo.

A bem da verdade o cobrador até permitia a estratégia, porque, no alto de sua sabedora, via ele que eu transportava uma marmita e, por certo, serviria para alimentar outro trabalhador. Mas, no fundo da minha ingenuidade, eu me sentia um vitorioso. Hoje eu digo: obrigado amigo cobrador esteja onde estiver Deus lhe pague. Pois bem, no local indicado, caminhava em direção à Rua Colorado e atravessava o campo do temido esquadrão de várzea: o Esporte Clube Colorado da Vila Carioca.

Tremo somente de pensar no dia em que meu humilde time, o 9 de Julho, enfrentou aquele esquadrão, tempos mais tarde. Perdemos de 7 a 0 e isso sem falar da carreira que tomamos até a Rua Silva Bueno. Mas lá seguia eu até a Rua Auriverdi e, mais adiante, mais ou menos a sete quadras estava a Rua Vemag. Seguia e passava a Av. Pres. Wilson até os trilhos do trem, com o desvio para o armazém do D.N.C. onde meu pai era o vigia. Ali eu passava o dia até às 14h, quando meu pai deixava o serviço e me transportava no assento traseiro de sua famosa bicicleta Monarck.

Mas o transporte tinha lá seu preço. Meu pai aproveitava minha estada para colher os frutos da horta que cultiva a beira da via férrea e que era respeitada por todos os funcionários do D.N.C., que podiam se servir do que necessitavam sem se esquecerem dos outros. Lembro-me da cena de malabarismo na bicicleta. Um saco de tomate amarrado nas costas. Uma cesta de vime, com verduras, evidentemente para a "bita" em uma das mãos e, em outra, uma enorme abóbora. O assento por mim ocupado era dividido com alguns chuchus. Mas eu era feliz e sentia prazer naquela viagem.

Que momentos agradáveis que não voltam mais. O tempo passou e aquele menino ingênuo e sem maldade não existe mais, porque, em seu lugar, hoje está um senhor de 71, para 72, anos de idade. Na chamada idade do lucro, representado pela sucessão de dias que Deus nos agracia, há necessidade de se cumprirem algumas recomendações médicas que não precisam ser lembradas: diabetes, pressão alta etc., etc. O remédio, segundo os especialistas, são os exercícios físicos, dieta, distância da bebida do fumo e assim por diante.

Sempre fui rigoroso comigo mesmo e sigo os preceitos. Por essa razão valho-me de uma esteira ergométrica para meus movimentos matinais, de modo que, assim, preparo-me para um longo dia de trabalho que se inicia às 4h30 da manhã e vai até às 19h. Sim, graças a Deus trabalho. Inesperadamente, minha esteira entrou em pane e o reparo havia de ser urgente. Verifiquei na internet qual o serviço especializado mais próximo de minha casa, no Ipiranga. Lá veio a informação: Rua Auriverdi. Não acreditei, porque, depois de muitos anos, veio-me à lembrança todo meu alegre passado da infância.

Coloquei a esteira no carro e segui o mesmo caminho percorrido anteriormente. Desnecessário dizer que tudo esta mudado, mas a Rua Colorado lá esta, tanto quanto esta a Rua Auriverdi e o charmoso Armazém do D.N.C., sem qualquer alteração até na cor. Correram-me lágrimas e vi, dentro de mim, com nitidez, o lugar por onde trafeguei de bicicleta com meu querido pai. Vi os trilhos do trem, mas, com profunda tristeza, não vi sua horta tão bem cuidada e que serviu a muitos.

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