Abri a minha primeira conta bancária no Banco Brasileiro de Descontos, como era conhecido o Bradesco, na Rua XV de Novembro, no Centro, isso lá por 1972. Naquele tempo os bancos eram todos sisudos, feitos exclusivamente para se deixar o dinheiro depositado em segurança, além de conceder empréstimos e um ou outro tipo de financiamento.
Cada agência tinha um gerente, um subgerente, escriturários e caixas. Entrava-se na agência, e apanhava-se uma pesada ficha numerada, de ferro, no balcão e ficava-se aguardando a chamada. Descontar um cheque só se fosse daquela própria agência. O saldo também era informado no próprio caixa. Nada de parafernália eletrônica e mesmo assim até que éramos felizes!
O sistema de fichas foi abolido e passou-se a formar filas individuais, uma para cada caixa. Azar o nosso se na nossa fila tivesse um office-boy com uma montanha de documentos. Pela Lei de Murphy as chances disso acontecer na nossa fila eram imensas. Mais tarde perceberam que era melhor uma fila única, o que perdura até hoje.
Mas os bancos foram se modernizando, um querendo oferecer um serviço melhor que o outro e começaram a privilegiar os bons clientes, que passaram a ter a sua fila exclusiva onde eram atendidos mais rapidamente. Os idosos, os deficientes e as gestantes, por sua vez, passaram também a ter sua fila exclusiva. Azar o nosso, os da fila (ou da vala?) comum.
Certa vez, em uma agência do Banespa, o caixa da fila comum foi tranquilamente almoçar e os outros dois que ficaram, atendiam só os idosos ou os clientes “Vips”. Alguém estrilou em voz alta e aí passaram também a nos atender, alternadamente. Furar fila era impossível, mas os espertinhos chegavam com um monte de documentos e tentavam passar para algum conhecido que já estava na fila.
Uma vez um senhor ficou furioso com esse procedimento, chamou o segurança e impediu que os documentos do fura-fila fossem passados ao conhecido. –“Se o sujeito age dessa forma, disse ele, que o faça lá fora, longe das nossas vistas”. Os tempos mudaram, mas as enormes filas também acontecem nos caixas eletrônicos. Não há mais clientes “Vips” em filas especiais.
Esses agora conseguem os seus "privilégios" na forma de um cheque especial melhor ou um financiamento em condições mais vantajosas. E tome tarifa no lombo, deles e no nosso! Hoje cada agência possui vários gerentes, para pessoas físicas e para pessoas jurídicas, o que desvalorizou muito essa função. Antigamente ser um gerente de banco dava status e respeito ao cidadão. Os gerentes modernos têm que cumprir metas, caso contrário, RUA!
E o mais curioso é que os serviços oferecidos pelos bancos se multiplicaram e passaram a ser considerados "produtos". Sempre querem nos impingir goela abaixo, um seguro de vida, um plano de capitalização ou um cartão de crédito. E não fazem cerimônia em ligar para o nosso trabalho e até mesmo para a nossa casa em pleno final de semana para nos oferecer os seus novos "produtos".
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