Dona Carmela

Na esquina de casa, na Rua Albuquerque Maranhão havia uma vendinha muito modesta. A proprietária era a Dna Carmela. Num pequeno balcão, ela atendia na venda do pão e do leite. Havia uma cafeteira na beirada da bancada e o café era servido naquele copinho de vidro apropriado, levemente alongado e com fundo grosso. Lá ela também vendia óleo de soja, sabão em pedra, bombril, cerveja, tubaina e outras coisas mais. <br><br>Do outro lado uma estantinha com alguns doces de leite, doce de abóbora de coração, doces de banana no palito, dadinhos, chicletes e Lanche Mirabel… Raramente íamos até a vendinha, pois do lado oposto havia um empório mais completo, o empório do seu Orlando. Às vezes a minha amiguinha e eu íamos até o barzinho da dona Carmela para comprar paçoca ou doce de leite.<br><br>Numa noite algumas crianças foram lá e, pela primeira vez, me chamou muito a atenção o lado humano da Dna Carmela. Sentadinha numa cadeira ela fazia a contabilidade do dia. No ambiente havia pouca luz e o movimento na rua já era pouco e ela ali, bastante grisalha, com um vestido simples, chinelos, cabeça baixa, de lápis na mão, anotando alguma coisa no seu caderninho. Parecia muitíssimo cansada para àquela hora da noite, 9h e a Dna Carmela estava aparentemente moída. <br><br>Alguém perguntou o preço do Lanche Mirabel e ela respondeu sem levantar a cabeça. A resposta era “30”. Trinta centavos o Lanche Mirabel… Evidentemente não compramos, pois estávamos muito habituadas a comprar o pé-de-moleque, que custava só “5”. Fiquei um tempo olhando para ela com tanto carinho que eu não sei de onde vinha, até porque ela não era amorosa conosco. Apenas trabalhava muito. <br><br>Achei linda e profundamente humana aquela cena. Pelo nome, deveria ser filha ou neta de italianos. E aí a gente já conhece a história do sofrimento, da esperança e do trabalho árduo que os mesmos despenderam na nova pátria. Pouco tempo depois a Dna Carmela vendeu o seu espaço para um português. Ainda com sotaque, o seu Antônio, de óculos e de bigode, não sorria por nada e a Dna Maria, sua esposa, nos atendia sem nenhuma simpatia. <br><br>De manhã eu ia até lá comprar os dois litros de leite paulista e os cinco pãezinhos que a minha mãe mandava. Mas eu olhava muito para eles, aliás, eu sempre olhei com muita atenção para os emigrantes. Queria entender um outro lado do mundo e as outras emoções. As indagações sempre me foram muito fortes e presentes. Pouco tempo depois veio também o sogro do seu Antônio e, num domingo, os dois saíram com o seu fusca vermelho 71. <br><br>O seu Antônio resolveu deixar os óculos em casa e o carro foi se desgovernando pela rua abaixo, mas o português conseguiu desviar de um outro. Será que vieram apenas procurando um meio de sobrevivência? Será que vieram à procura de algum parente que tenha conseguido trabalho? Será que a Dna Carmela veio correndo do Mussolini e o seu Antônio correndo do Salazar? Um outro vizinho, pai de um colega, veio para ficar longe do fascista da Itália.<br><br>Não sei da razão da vinda deles e nem do rumo que esses trabalhadores imigrantes, de rostos cansados e suados, deram às suas vidas, mas entendo que lhe tenham dado um bom destino. Eu sei que tinham alguma beleza na alma, algum sonho. Com certeza a dona Carmela ou os seus pais trouxe da Itália a religiosidade e o prazer pela boa mesa. O seu Antônio e a dona Maria devem ter trazido um cheirinho de alecrim.<br><br><br>E-mail do autor: [email protected]