O sonho de consumo das famílias com poder aquisitivo baixo nos anos 50 era ter o que chamávamos de rádio vitrola onde ouvimos os programas e também os bolachões de vinil de 78 rotações. Certo dia meu pai aparece com um, foi à alegria da família por muitos anos. Era uma caixa envernizada com o toca discos em cima protegida por uma tampa.
A família era muito grande e lá morava o meu pai, minha mãe, eu, mais três irmãos e quatro irmãs, uma casada que morava com a gente, portanto um cunhado e minha nona (mãe de mamãe). Bem cedo meu pai ligava o rádio na Record com o programa Banda de Todas as Bandas e assim acordávamos ao som de dobrados "taratatam, cham cham cham" no último volume.
Meus irmãos e irmãs iam para o trabalho e eu, o caçula, para a escola. Voltávamos todos, as onze e trinta e o aparelho já ligado na rádio Nacional, ao som de St. Louis Blues com Glenn Miller e sob o patrocínio das lojas Assunção. O locutor gritava a todos os pulmões: – "Paradaaaaa de Suceeessos" apresentando os cinco sucessos do momento.
Meio dia começava o Programa Manuel de Nóbrega que ia até às 14h. Atrações musicais e humorismo com Alda Perdigão, Hebe Camargo, Elza Laranjeira, Isaura Garcia, Agostinho dos Santos, Francisco Egidio, Roberto Luna, humoristas como Ronald Golias, Manuel Inocêncio, Daniel Guimarães, Valter e Ema D'Ávila e a revelação de um novo apresentador, Silvio Santos o "peru que fala".
Novelas na rádio São Paulo e Cultura. O grande sucesso O “Direito de Nascer” e as sertanejas como Jerônimo, o herói do sertão e Dioguinho. Às seis horas, minha mãe não perdia de jeito nenhum À Hora da Ave Maria, com a benção do padre Donizete.
À noite a família se reunia para ouvir os programas humorísticos; Nhô Totico com a escolinha de dona Olinda, PRK 30 com Lauro Borges e Castro Barbosa, História das Malocas com Adoniran Barbosa e seu personagem Charutinho que morava no morro do piolho, Balança, mas não cai, Alvarenga e Ranchinho, Zé Fidelis, mais tarde veio o José Vasconcelos imitando um italiano que não conhecia futebol.
Ficávamos sabendo sobre o Brasil e o Mundo com o Repórter Esso. Domingo à noite tinha o programa Festa na Roça com Lulu Benencase onde declamava lindas poesias sertanejas. Nas Copas do Mundo de 54 e 58 instalava-se uma extensão e o rádio ia para o muro da frente e todos na calçada, inclusive os vizinhos, ouvindo Edson Leite, Pedro Luiz e Geraldo José de Almeida falando direto da Suíça em 54 e Suécia em 58.
O rádio dava seus chiados, mas todos entendiam e torciam pela seleção brasileira e esbravejavam quando o juiz "roubava" nosso time conforme o que os narradores transmitiam. Nunca me esqueci do Mister Elis que dizia roubou o Brasil contra a poderosa Hungria de Puskas. Época de eleições meu pai ouvia até tarde da noite todos os comícios, torcia a favor quando era do Jânio Quadros, e falava contra quando era do Adhemar de Barros.
Depois começaram aparecer os discos 78 rotações, cada um com seu gosto. Meu pai, claro, com os dobrados, adorava bandas de coreto, IV centenário com Mário Zan era o preferido, meus irmãos vinham com Chico Alves e Orlando Silva, minhas irmãs com tangos de Gardel, orquestras de Waldir Calmon, e Perez Prado tocando Cerejeira Rosa.
Na minha adolescência, eu judiava dos ouvidos de minha mãe com o novo ritmo que surgia nos finais dos anos cinqüenta, Rock'n Roll, com Elvis Presley, Bill Halley e seus cometas, Litlle Richard e outras barulheiras da época. O tempo passou, veio a TV, mas não abro mão do meu radinho de cabeceira.
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