Há dias eu estava conversando com a minha esposa sobre vários assuntos das nossas infâncias, e de como a nossa memória é um cofre inviolável do qual nenhum ladrão rouba nada e não pode haver confisco. Recordávamos tantas coisas que hoje é só passado, quem as viveu se recorda, amanhã serão somente títulos de livros de história.
Quem se recorda das tramelas para fechas as portas, da lamparina e do lampião a querosene, daquela carne e linguiça guardadas na banha no fundo daquela lata vazia de querosene. Geladeira? Era palavra desconhecida, pois luz elétrica era um luxo que só em grandes centros se tinha. E quantas outras coisas mais: o velho torrador de café; o pilão e tudo o que nele era feito; as máquinas de moer e encher linguiças; os pães e bolos caseiros.
Não que sejamos velhos ou antigos, o progresso é que muitas vezes anda devagar em alguns lugares e muito rápido em outros, tal como sempre aconteceu, na metrópole da nossa queridíssima cidade de São Paulo. Entre as minhas recordações surgiu-me uma história que me guiou em meus atos e que serve para reflexão hoje e sempre, e eu a conto agora:
Foi dado a um garoto um coração, recortado em madeira, e a ele se explicou que cada vez que fosse desobediente ou fizesse uma malcriação, naquele coração seria pregado um preguinho. No final do ano, se veria quantas vezes ele havia errado e quantos pontos perderia. E assim fazer, ou não, jus ao presente de natal.
Dias, semanas, meses haviam passado quando o garoto se lembrou do coração, correu para pega-lo e quão decepcionado ficou consigo mesmo. O coração estava cravejado em quase toda superfície. Mas ele era sabido e esperto. Tirou todos os pregos, tampou todos os furos com cera, lixou, pintou novamente e lustrou. Ponto o serviço estava perfeito, seus erros estavam encobertos.
Guardou sua obra e ficou tranquilo. Com um bom malandro ninguém pode. Será? Mas qual não foi a sua decepção, quando em data não prevista, o coração foi pego para a prometida verificação. Que lindo, tão bem pintado, polido, lindo mesmo. Raspou-se aquela casca e olhem só o que surgiu, todas as marcas, todos os furos, que decepção!
Quantos "garotos" iguais ao desta história encontramos em nosso dia-a-dia e nós mesmos, quantas vezes queremos disfarçar nossos atos, enganando a nós mesmos, o que é impossível, pois nossas consciências não esquecem.
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