Será mesmo? Parece que este ano a Primavera entrou em cena com o pé esquerdo, pisou na jaca, escorregou e estatelou-se no palco. Há muito não víamos tal vexame. Chuvas de Verão, frio de Inverno, mas de Primavera mesmo pouca coisa de bom. Vivaldi ficaria louco, e suas Quatro Estações virariam Cinco, Seis,… perderiam todo ritmo e compasso.
As cidades do sul debaixo d’água, cinco graus em Curitiba. Hoje acordo tremendo de frio, para enfrentar mais uma São Paulo cinza e úmida. Hemingway disse, em "Paris é Uma Festa", que nada mais triste que uma falsa primavera, aquela que não veio, e faz tempo que não vejo uma tão falsa como esta.
E as flores? Em verdade, a entrada da estação veio para derrubar o que restara de meu ipê amarelo, estas sim, primaveras encarnadas. E olhem que este ano o ipêzinho florira como manda o figurino. Não como em anos passados, com uma florada pobre seguida, dias mais tarde, de uma outra, mais festiva.
Já a primavera, carregadinha, deixou no chão um tapete vermelho, como numa entrega do Oscar. Mas, para ser justo, os prejuízos não foram totais. Os sabiás continuaram vindo e cantando apesar do mau tempo. Em certas regiões, como Moema, os jacarandás mimosos continuaram tão mimosos como sempre, copados de suas elegantes flores malva e roxo, que combinam com as cores frias do dia.
A murta que ladeia meu portão abriu-se, pela primeira vez, nas suas perfumadíssimas florzinhas brancas, para fazer coro a suas companheiras que espalham seu delicado odor pelo Brooklin todo. E sempre a esperança de que, como demonstram essas flores, as coisas não estejam tão ruins assim ainda em matéria de clima.
Elas sabem melhor do que nós, dos níveis de poluição, das misteriosas seivas que lhes alimentam as raízes, do que se passa, acima e abaixo, na nossa ameaçada Mãe Terra. Embora a Primavera ainda não tenha dado o ar de sua graça, esperamos que ainda possa aparecer.
E que as crianças continuem a cantar, como nas minhas frustradas e inúteis aulas de Canto Orfeônico, no ginásio: – Desperta no bosque gentil Primavera. Com ela chegou o canto, gorjeio do sabiá. Lá, Lá,… (16 vezes a sílaba Lá).
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