Grupo Escolar Rodrigues Alves e minhas professoras

Nós sempre guardamos em um lugar muito especial de nossos arquivos neuronais as lembranças de nossa infância. Claro que são boas lembranças e nem poderia ser de outra maneira, pois a infância é o melhor tempo de nossas vidas: as brincadeiras, as correrias, o futebolzinho, os “arranca-rabos” com os amigos da mesma idade e a escola, principalmente a escola.

Entrei pela primeira vez numa escola em 1948, deveria ter entrado um ano antes, em 1947, mas, por uma burocracia da época foi preciso esperar um ano para começar oficialmente os meus estudos em razão de qualquer coisa relativa à data de nascimento ou coisa parecida. Meus pais tentaram me matricular no "G. E. Maria José" que ficava a três quarteirões de casa, mas não foi possível, barraram na questão da data de nascimento.

No ano seguinte voltaram, mas as vagas haviam se esgotado quase que instantaneamente e eles ficariam a ver navios se não fosse uma funcionária do Grupo Escolar que conseguiu uma vaga para mim no Rodrigues Alves com um simples telefonema. Bendito seja o falecido Graham Bell, que Deus o tenha! O Rodrigues Alves, para quem não conhece, fica na Av. Paulista, em frente ao Hospital Santa Catarina a uns 300m da Praça Oswaldo Cruz, uma boa caminhada de minha casa até lá.

Bonde? Nem pensem nisso! 500 réis a passagem, 1.000 réis ida e volta, uns 20.000 réis por mês, um dinheirão numa época em que meu pai ia trabalhar a pé, do Bixiga até o palácio dos Campos Elíseos e de lá para um outro emprego na antiga SPR, (E.F. Santos à Jundiaí) na Barra Funda, para economizar uns tostões e, quase sempre, por não ter dinheiro, mesmo… Voltemos ao tema proposto. Minha primeira professora chamava-se Ludovina L. Betiol, uma mulher baixinha, de voz forte, que dominava toda a classe.

Dna Ludovina sabia ser simpática e enérgica ao mesmo tempo (vez ou outra escapava um tapa no cocuruto de alguém, mas, diga-se de passagem, ninguém morreu por causa disso nem se traumatizou a ponto de se tornar um "serial killer") e ela nos fazia ler e "cantar" a 1ª lição da Cartilha Sodré: "A pata nada – pata, pá, nada, na…”, repetíamos a tabuada em coro: – dois "veis" um? Dois; – dois "veis" dois? Quatro; – dois "veis" "treis"? Seis… e desenhávamos o mapa de São Paulo e o do Brasil em nossos caderninhos de desenho. Creiam! Tínhamos nota por isso.

Em 1948 me aconteceram algumas coisas não muito agradáveis: fiquei afastado das aulas por 30 dias com a desgraçada da caxumba (-“Não pode ir para aula, menino! Tem que ficar de resguardo…”); o dentista visitante me arrancou quase todos os dentes; comecei a usar óculos, pois eu era tão vesgo que quando chorava as lágrimas se encontravam na ponta do nariz, meu tio Mané me gozava. Lembro-me que fiz os exames oftalmológicos numa clínica do Estado que ficava num casarão da Rua da Consolação, em frente ao Cine Odeon… Saudades de Dna Ludovina…

No segundo ano minha professora foi Dna Amélia Marrey, irmã do grande Marrey Jr. Assim como Dna Ludovina, Dna Amélia era uma excelente mestra. Com ela aprendemos História do Brasil, Geografia, Ciências, Português e Aritmética. No início das aulas cantávamos os hinos oficiais, o Hino Nacional, o Hino da Independência, o Hino da República e, acreditem ou não, alguns sambas-exaltação: "Este Brasil, tão grande e amado, é meu país idolatrado, terra do amor e promissão…" Dna Amélia era uma senhora já de bastante idade, os cabelos branquíssimos, um sorriso encantador, cantava muito bem, um doce…

No Terceiro ano as aulas eram ministradas por Dna Elza Gasparini, uma figuraça… Chegava num tremendo carrão azul, creio que um Buick, com motorista uniformizado, de quepe e tudo mais, que saía para lhe abrir a porta do carro e a acompanhava até a sala de aula, levando seus livros e papéis… Seu nome e fotografias saiam nos jornais da cidade, na A Gazeta, no Correio Paulistano, no Estadão e no Diário de S. Paulo. Ela era uma espécie de líder em campanhas de benemerência e caridade, tinha algum cargo nos Sanatorinhos.

Nosso aprendizado continuava a todo vapor. O Estado distribuía, para os alunos, livretos que versavam sobre as matérias do programa. Tínhamos noções básicas de anatomia humana, botânica, geografia geral, história do Brasil e entre outras mais. Juro por tudo quanto é sagrado que não estou mentindo. Voltando a falar da Dna Elza, eu lhe pergunto: alguma mulher com posição e situação financeira da profª. Elza se abalaria a dar aulas para uns pirralhos do Bixiga e adjacências nos dias de hoje? Será?…
Dna Elza, que saudades…

No quarto ano tive aulas com Dna Maria de Lourdes Vianna Bohn, professora de altíssimo nível que arrematou o trabalho das mestras anteriores. Vez em quando ela trazia seu filho, um menino de nossa idade, para assistir aula conosco. Seu nome era Djalma e ele era muito irrequieto e muito inteligente… Fico pensando se o Djalma Bohn, aquele do PT, não seria filho de Dna Maria de Lourdes…

Bem, paro por aqui. Meu sincero agradecimento pelo que essas mulheres fizeram por mim e por milhares de alunos que tiveram a honra de passar por suas mãos… Meu beijo agradecido!

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