Solidariedade ou assistencialismo?

Circulando pela cidade, próximo das festas de fim de ano, surpreendi-me com a reação de um pedinte no semáforo, que ao ter atendido seu desejo de receber um trocado, saiu-se com essa: "-Hoje dá até pra escolher o tipo de esmola. Perto do Natal a gente não precisa nem pedir, as coisas e o dinheiro vão saindo dos carros. Parece mágica. Quero ver depois que passar as festas; a gente se acostuma e aí, como é que fica?”.

Pois é. Pipocam nessa época do ano na cidade de São Paulo, gestos de solidariedade em favor dos mais desprovidos. Vê-se pelos cantos sombrios, em baixo de viadutos, até em proximidades de favelas, pessoas imbuídas de boa vontade. Distribuindo presentes, alimentos, principalmente brinquedos, sem contar as inúmeras instituições que se mobilizam para distribuir presentes, cada vez mais personalizados, atendendo individualmente aqueles que a elas recorrem.

Nossa solidariedade parece ter chegado ao seu ápice, seja qual for sua força motriz: vontade de ser útil, aplacar a consciência inquieta, bondade nata, não importa, São Paulo é solidária. Contudo, fora dessa época nossa solidariedade diminui um pouco, até nos permitimos classificá-la de assistencialismo, dizendo que não adianta ajudar nos faróis, não é o caminho certo somente doar, temos que ter políticas para corrigir nossa miséria, etc.

Mas nessa época de Natal tudo pode, baixamos a guarda e engavetamos o conceito de assistencialismo por algum tempo, e simplesmente doamos e nos doamos. Certo ou errado, não se sabe, mas o que inquieta mesmo é a pergunta daquele senhor: "-E depois, como é que fica?".

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