Samba de um crioulo doido

São Paulo é sempre uma caixa de surpresas, nunca se sabe o que esperar. Por isso, nada mais devia espantar-nos, quase paulistanos que quase todos somos.

Mas, humanos que ainda continuamos a ser, volta e meia o inesperado surge, tal o louco de Piazolla, que saía de trás de uma árvore, portando uma "banderilla" e dando gargalhadas – "yo sé que estoy piantao… piantao, piantao… no ves que va la luna volando por Casals"…

Desde que me lembro, a Avenida 23 de Maio sempre foi um mar de carros. Na hora do rush, então, um mar parado. Pára, anda, primeira, segunda marcha, pára de novo. E assim seguimos, quase arrastados pela multidão motorizada.

Estávamos em 75, e as coisas eram um pouco melhores que hoje. Eu seguia para a cidade, e o trânsito até que fluia bem, naquela manhã. Passei pelo Detran, avistei ainda o famoso outdoor dos pistões da Metal Leve, funcionando perfeitamente, eternamente.

Aproximava-se o viaduto, antes da curva que inicia a subida para o Paraiso, onde existia ainda a fábrica da Brahma. À direita, o estranho restaurante em forma de Caravela, onde estive uma vez. Ia a uns 80 por hora, mas resolvi reduzir antes dessa curva. Nunca se sabe.
Foi a minha salvação.

Repentinamente, o mundo enlouqueceu bem à minha frente. Freadas bruscas, carros se desviando em ângulos absurdos, buzinas disparando. Era como se um tornado tivesse atingido a avenida, antes tão tranquila.

Meti o pé no freio, e a velha Alfa Romeo obedeceu sem hesitar. Tomei consciência num segundo de tudo que se passava ao redor, como se o tempo tivesse entrado em câmera lenta, as imagens congeladas como numa cena de Matrix.

Vi, como num sonho, a razão do transtôrno: um velho crioulo, louco ou totalmente embriagado, cruzava com toda a calma a avenida, sorrindo e talvez com um passo de dança, como se estivesse desfilando numa perdida passarela de um carnaval do seu passado.

Cada faixa de trânsito que ele enfrentava entrava em colapso. Por sorte, ele já havia cruzado a minha. Durou um segundo a visão. Eu nem tinha mudado a marcha e arranquei imediamente, com medo de sobrar ainda algo para meu lado.

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Ninguém se machucou no episódio.

Fico imaginando o que aconteceria, se fosse hoje. Provávelmente, nada. São tantos carros que talvez nem ele se atrevesse a encarar a parede mecânica. Ou, se o fizesse, atravessaria sem nenhum problema, pois o trânsito deveria estar totalmente parado. Sei lá!

Passou-se o tempo. Foi-se a Alfa, desapareceu a Caravela, o cartaz dos pistões ML, a Brahma que dominava, lá de cima, o Ibirapuera. Mas a lembrança da aparição ficou, com uma advertência de que vivemos num mundo tão doido quanto o crioulo com seu samba na avenida.