Mis padres, mis hermanos y… eu

Meus pais e meus irmãos, vindos da Argentina, chegaram ao Brasil em 1937. A duração dessa empreitada seria de dois anos e a função de meu pai era fiscalizar o trigo que o Brasil importava da Argentina. No dia 11 de setembro de 1943 eu nasci. Primeira brasileira da família.

Os meus dois primeiros anos de vida, coincidiram com os dois primeiros anos de escola da minha irmã. Ela, ao estar em contato com várias crianças, pegava ligeiramente todas as doenças da "moda", catapora, sarampo, coqueluche etc. Eu… passava muito mal… “Só faltava morrer”. Demorava um mês para me recuperar.

Com quatro anos eu já sabia ler, escrever e declamar as poesias infantis de Olavo Bilac. Essas conquistas não tinham a ver com inteligência e sim, às surras que eu levava do meu pai se não aprendesse a lição que todo dia ele me dava. Já com sete, oito anos eu sumia de casa, minha mãe procurava saber se havia algum velório pelas redondezas.

E lá me encontrava junto com os parentes chorosos, ao lado do morto, recebendo pêsames. Não lembro de, alguma vez, ter visto meus irmãos e irmãs receberem algum castigo, ou brigarem entre si. Em compensação, eu era o saco de pancadas de todos. Eu acredito que devido ao meu histórico médico meu pai não foi tão rígido comigo e eu, como resultado dessa educação, fiquei um pouco mimada.

Eu adorava fazer aniversário. Convidava todas as crianças da minha rua, da Rua Campo Salles onde tinha um cortiço que eu frequentava, da Rua Flora. Todas as crianças eram avisadas, se não levassem presente, não entrariam. Nesse dia eu ganhava sabonete, chiclete, bala, fivela usada etc. A quantidade é que era importante para mim.

Naquela época eu já me preocupava com o futuro. Todas as pessoas que conhecia e que as considerava eram velhas e não falavam o português (inclusive meus pais). Então ficava imaginando qual seria a língua que mais tarde eu falaria. Um dia meu irmão me fez uma proposta: – O que você gostaria de ganhar, um papagaio ou um elefante?

Pedi uma semana para analisar a proposta e cheguei à conclusão que minha mãe aceitaria mais facilmente um papagaio. E não é que o ingrato apaixonou-se a primeira vista pela minha irmã Ofélia? Justamente a mais chata, naquela época. Quando ela casou-se seu amor passou a ser minha irmã Teresinha. E quando só restavam meus pais e eu, ele reconheceu finalmente quem era seu verdadeiro e único amor. EU! Um falso, ele era.

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