Jaqueline e o teatro

Na Av. Rio Bonito peguei o ônibus Vila Mariana. Meu lugar predileto é o banco individual próximo à porta, mas estava ocupado por uma jovem que lia um livro. Assim que me viu ofereceu o lugar. Recusei como sempre faço, agradeci. De pé, abri meu jornal e comecei a ler. Depois de duas paradas a moça se levanta cedendo o lugar. Pensei que era chegado o momento dela descer. Agradeci e sentei.

Todavia ela se acomodou na rampa ao lado. Falei: – "Pensei que você fosse descer!". – Ela respondeu: – "Estou bem aqui, é ruim ler jornal de pé". Diante de tanta gentileza não tive coragem de continuar lendo o jornal. O livro da jovem era sobre teatro, autor russo, dando dicas para os futuros atores. Maravilha, ela faz parte de um projeto teatral.

Nossa posição não permitia uma conversa "vis-à-vis" então não pude gravar bem seu rosto. Desceu próximo ao Ibirapuera e eu fui até o fim da linha. Peguei o metrô, desci na Ana Rosa, em seguida metrô Vila Madalena e parei na estação Brigadeiro. Debaixo de chuva fui até o Hospital Brigadeiro onde recebi o resultado de uma biópsia.

Ainda na Brigadeiro no retorno entrei num SEBO onde me chamou a atenção um livro de Pensamentos, porém estava lacrado. Dei uma bisbilhotada na casa e sair para tomar o metrô na Paulista. Desço no Paraíso e de lá chego a Vila Mariana. Ponto inicial do ônibus, pouca gente na fila. Uma senhora fumava e o odor fedido do cigarro fez com que eu saisse da fila. Chega o ônibus. Todos vão se acomodando.

Meu lugar predileto estava ocupado por um rapaz cego. Sentei no banco de dois lugares atrás do motorista. Passageiros entrando quando de repente vejo a jovem do teatro. Ainda naquele mesmo segundo, pensei "será?" Ela sorriu. "Ela mesma! Incrível!" Também se admirou pela coincidência. Sentou-se ao meu lado, mas logo cedeu o lugar a uma jovem mamãe com uma criança de seis meses.

Ela de pé e eu sentado. Prosseguimos a conversa e ai pude perceber o quão era bonita a moça de sorriso fácil e cativante. Outra parada e sobe uma mulher de bengala. A moça ajuda-a na subida. Em outra parada ajuda a mãe da criança descer. Nova parada auxilia o cego sair, enfim trabalha como auxiliar do ônibus. Toca o celular dela. Não sou surdo, é o namorado marcando encontro para almoçarem, duas paradas depois da Américo Brasiliense (?). O motorista também não é surdo.

Quando chega ao ponto avisa a moça que sai correndo. Pouco antes fiquei sabendo seu nome: Jaqueline. Desceu mas deixou um ambiente carregado de amor. A senhora de bengala elogiou: "tão jovem e prestativa, não se vê mais gente assim". O motorista – "parei porque ouvi a conversa dela e o modo com que ajudou todos foi bonito". Jaqueline, oxalá possa algum dia aplaudi-la em plena atividade teatral. Todos que a conheceram no ônibus, esteja certa, desejam seu sucesso, você merece.

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