É do início da década de 60, que vêm as primeiras lembranças da minha infância. Eu morava numa casinha pequenina, bem na beira da estrada. Naquele pedaço de chão meu pai plantava e cuidava. Abaixo da minha casa, tinha a olaria do seu Aroldo, ao lado tinha um caminho que ia até o seminário, onde mais abaixo tinha a chácara das Rosas, ao longo desse caminho muitos pés de Pinheiro que dava pinhão a "rodo", e o João de Barro gostava de fazer suas engenhosas casas no mais alto galho dessas árvores. <br><br>Próximo à Olaria passava um rio, onde vez em quando um peixinho era pescado para ser servido fresquinho no almoço. Do outro lado da estrada havia o sítio do seu Guerino, era muito interessante como se tirava água do poço deste sítio. Tinha uma bomba manual que levantando e a abaixando uma alavanca a água cristalina ia jorrando. Tipo aqueles de filme antigo americano que não precisava de energia elétrica. Também nem tinha, a luz era da lamparina de querosene. <br><br>Em casa era diferente, minha mãe tirava água do poço com o balde, na manivela. Na casa deste sítio eu presenciei a vizinha cortando o pescoço de uma galinha e esta correu quintal a fora sem cabeça. Ao redor da minha casa meu pai plantou muitos pés de Lima da Pérsia, dava Lima o ano inteiro, e todos os dias meu pai descascava muitas frutas para chuparmos logo pela manhã. Ele dizia: – fruta de manhã é ouro, meio dia é prata e de noite mata. <br><br>Nunca soube o porquê, mas era ditado do meu pai. Tinha um abacateiro, um pé de gabiroba, e muitas laranjeiras. Certa vez minha mãe e eu buscando lenha no mato encontramos uma orquídea (hoje eu sei que era Catleya, orquídea nossa), minha mãe trouxe a planta no galho e juntou ao pé da laranjeira que ficava bem na porta de casa. A orquídea gostou do lugar, abraçou a laranjeira, cresceu e floriu muito. De cor rosa bem forte ela encantava a entrada da nossa casa. <br><br>A mais linda árvore de Araticum, também estava lá, e diariamente recebíamos a visita do amigo “Serelepe”. O bichinho chegava rapidinho, cumprimentava com o olhar, subia na árvore, pegava uma fruta, comia lá mesmo. Lá das alturas ele inspecionava toda a região, e satisfeito enchia o peito, pois tudo sempre estava na mais perfeita ordem, descia feito um foguete, se despedia para voltar religiosamente no outro dia. Mas, a triste hora chegou, o lugar foi vendido para ser construído o Convento. <br><br>Não deu nem para respirar, e o trator chegou derrubando tudo. Os pés de Lima, todos caíram, o abacateiro carregado de frutas também. A laranjeira repleta de flor preparando os frutos, com a orquídea também florida abraçada a ela foi para o chão. Só a casa ficou de pé. Décadas já se passaram e ainda dói meu coração… Quando eu vi no alto do barranco nosso amigo “Serelepe” com os olhinhos miudinhos, piscando freneticamente tentando segurar as lágrimas, presenciava tamanha tristeza. <br><br>Nas garras do trator o observatório dele lentamente caiu. Ele me deu um último olhar, se despediu para nunca mais voltar. Hoje naquele lugar só o Convento ainda existe. A Olaria há muito se acabou, o rio que passava embaixo da ponte da estrada, sumiu. A lagoa onde eu passeava de canoa secou. As coloridas Rosas cheirosas, só minha memória guarda o retrato com a beleza e o perfume delas. O sítio onde eu vi a galinha correndo sem cabeça, não existe mais. Os Pinheiros que davam pinhão para ser assado na fogueira de São João, não têm nem para remédio. <br><br>E o João de Barro onde andará? Não restou um para contar se é verdadeira a história sobre a esposa infiel. O progresso chegou nada nem ninguém ele perdoou. Na missa de domingo o padre falou: – As irmãs também vão para outro lugar. Temos notado famílias inteiras de bichinhos com seus filhotinhos, percorrendo léguas ao relento, sob sol, chuva e vento, desesperados, desvalidos, se achegando nas casas procurando abrigo. <br><br>Foram expulsos daquele verde tão lindo que o nosso criador preparou para eles e que o homem resolveu derrubar e cimentar para abrir alas para o Progresso. A que preço tamanha judiação? Porém, tem muita gente gostando, a Rodovia vai movimentar muuuuitos milhões e vai valorizar a região. É custoso para o homem entender que não existe um único ser que consiga viver sem o ar, sem a água e sem o solo fértil para tirar o alimento. <br><br>Então, consciente ecologicamente ou não, nem adianta chorar, já está tudo no concreto, é fato consumado, concretizado está… <br><br><br>E-mail do autor: [email protected]