Pensão Arouche

Naquele tempo, início dos anos 1960, um rapaz de dezoito anos, recém terminado o Tiro de Guerra e o curso científico no interior do estado, mais precisamente em São Carlos, tendo ficado algumas semanas morando com a tia Antonia na Rua Agostinho Gomes, no Ipiranga, e, ansiando pela liberdade de morar sozinho na capital.

Chegou com a mala, à cara lavada e alguma coragem na pensão Arouche, no largo do mesmo nome, em frente ao Cine Regina e negociou uma vaga para morar. Estava feliz e otimista, além da liberdade que esperava ter morando sozinho, estava querendo um pouco de privacidade, pois a casa da Tia Antonia, onde estivera morando nas últimas semanas, era muito pequena.

Nela moravam, além do marido, tio Itamar, os primos Francisco e Marcelo, a prima Joana e uma tia dos primos, a Ivone. Uma quarentona de seios fartos, que dada à proximidade em que viviam na minúscula residência, vivia com os hormônios à flor da pele.

O primeiro sinal de que as coisas não seriam tão fáceis, foi percebido ao saber que não teria dinheiro para morar em um quarto privativo naquela pensão e em nenhuma outra do mesmo tipo, pois a mesada que os pais lhe dariam para começar a vida na cidade grande era pequena, e, além de pagar a pensão, teria que se alimentar, pagar a condução e a mensalidade do cursinho Pandiá Calógeras.

Queria fazer administração de empresas na Getúlio Vargas e arranjar um emprego. O otimismo, apesar de ter que dividir o quarto com mais quatro homens, ainda permanecia. O desespero chegou após a primeira noite sem dormir um só minuto, e, com o passar dos dias ao conhecer os companheiros de quarto. Um cobrador de bonde que trabalhava durante o dia e, portanto dormia mais ou menos no mesmo horário, roncava como uma locomotiva e cheirava suor a metros de distância. O primeiro que o encarou desconfiado.

O outro era um professor primário, com o qual foi depois morar numa pensão na Rua Dona Veridiana, de nome Professor Castanho e mais dois operários, que trabalhavam à noite e dormiam de dia. Essa foi à primeira decepção e uma das inesquecíveis lembranças de um jovem, que hoje com 67 anos, apesar de morar no interior, ainda adora a cidade de São Paulo.

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