Conheci a Vila Beatriz há 30 anos. Bairro simpático, com cheiro de uma relativa calma, ruas tranquilas e arborizadas. A Vila Beatriz parecia sempre na santa paz, vizinha da Vila Madalena, bairro efervescente na produção cultural, também cheio de maravilhas e de surpresas. Mas eu gostava mesmo de passear por ali. Preferencialmente nos finais de semana íamos passear na Rua Natingui.
O objetivo era visitar a tia Leonor, tia do meu marido. Pessoa muito especial e de muita fé, uma simpatia, sempre pronta par atender os outros com muita boa vontade. Eu sempre me entendi com ela. Achava o máximo a casa em que ela morava. Na frente, uma pequena plantação de ervas medicinais, um pé de café e um limoeiro.
Cada pessoa que batia à sua porta pedindo algumas folhas ou mudas, ela aproveitava para perguntar se a pessoa interessada conhecia alguma propriedade medicinal a mais naquela planta. E ia aprendendo, repassando conhecimento, comprando livros de ervas e de medicina alternativa que hoje chamamos de medicina complementar.
Passou a vida trabalhando no Hospital das Clínicas como enfermeira e viu cada caso… Conforme dizia o nosso Adoniran, no Samba do Bixiga, "os mais pior vai pras crínica". Nunca me esqueci de uma das suas falas. Havia um paciente internado e que produzia uma quantidade absurda de catarro. Nada resolvia a vida do homem.
Até que um dia, escondidinha do médico, ela foi para a casa, comprou uma galinha, tirou as banhas, levou uma boa quantidade da mesma e fez uma cataplasma no peito do paciente. Aquela banha limpou o catarro de tal forma que o paciente rapidinho recebeu alta. O médico sem desconfiar dos saberes da enfermeira ficou abismado com a súbita melhora.
Sempre se interessou muito pelos outros e na sua casa a fartura era uma coisa impressionante. Nunca comi uma mandioca cozida com açúcar mais gostosa que aquela da casa da tia Leonor. Bem humorada, queria saber de todos com muita afetividade e interesse. Mas a tia, lá na casa da Rua Natingui, tinha um fogão verde, de abas, daqueles da década de 50… e eu olhava aquele fogão com espanto e admiração…
Dali saía às lasanhas mais maravilhosas do mundo. E o cheiro da afetividade gritava aos nossos ouvidos. Numa das idas a São Paulo, eu criei coragem e falei: -"tia, no dia que a senhora não quiser mais esse fogão, a senhora me vende?" Ela disse que o fogão era maravilhoso e que ela nem imaginava ficar sem o mesmo. Conformei-me.
Na visita do ano passado, percebi que ela tinha um fogão novo na sua cozinha, todo “modernoso” e imponente. Assim, ela me disse: -"Vera, o teu fogão está aí". Eu nem acreditava! Perguntei se antes ela não gostaria de conversar com os filhos, ver se eles queriam… e ela simplesmente me disse: -"não , ninguém quer. Só você".
Fiquei em ponto de bala, felicíssima! O mesmo não cabia no carro para trazermos para Florianópolis, Trouxemos somente uma parte. O resto virá num caminhão de mudanças. Eu imagino aquele fogão verde, de abas, aqui na minha cozinha, o charme, o gosto das coisas antigas, a lasanha, o bolo de fubá… O gosto da casa da fartura da tia Leonor, a casa da Rua Natingui, um sonho de família sempre próxima. Gosto de partilha e nada melhor nesse mundo que repartir a comida.
A tia Leonor se mudou dessa casa. Mesmo assim fomos fotografar o antigo local onde morava. A casinha foi demolida. Vão construir um prédio bem ali. Nessa última viagem, passeamos e andamos por aquele lugar, na chuva, de um lado para o outro, batendo fotos, relembrando os tempos, conversando sobre as festas, os encontros e as saudades.
E eu me orgulho muito de apresentar ao meu filho uma parte dessas histórias e sempre com muito sorriso e brilho no olhar. É um privilégio muito grande fazer parte de uma família que gosta de festas, de reuniões, homenagens, casamentos, onde todos se encontram ao redor de uma boa mesa, partilhando sempre com alegria e consideração.
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