O seguro do tio Duílio

Tio Duílio morreu cedo, ainda não fizera cinquenta anos. Sua filha Clélia tinha dezessete anos e seu filho Mário completara dezoito. Tia Dora se tornara uma viúva ainda jovem, ainda morando na casa da avó Carmela. Depois do fiasco da mudança abortada, decidiram continuar morando com ela no casarão e ali se fincaram para somente se moverem com relutância anos e anos depois.

Após a morte do tio Duílio tia Dora ficou sabendo que ele havia feito um seguro em nome da família. Tia Dora, vestida toda de preto, chapeuzinho de lado, foi até o centro da cidade para resolver a papelada e receber o dinheiro. Corria o ano de 1962. Quantas e quantas viagens de ônibus foram necessárias, mas tia Dora não desistia.

Seu maior problema sempre fora financeiro. Ela estava prestes a receber o tal seguro. A ideia do dinheiro conseguira tornar a morte do marido menos dolorosa, tia Dora aos poucos já quebrava o luto fechado, colocava uma blusa de cor sob o conjunto de saia e casaquinho, já se mostrava mais animada para as amigas.

Vó Carmela não aprovava tal luto rápido. Desde que seu marido Agostinho falecera, ela jamais deixara de vestir preto fechado, como é o costume até hoje na Itália. Viúva, é viúva, dizia minha vó. Tia Dora, porém pelo jeito esquecera o marido e pensava no que ia fazer com tanto dinheiro.

Como demorava! Quantas formalidades! E lá ia ela, ladeira do Paraíso acima, rumo ao centro, o constante chapeuzinho equilibrado na cabeça, a bolsinha preta e branca, as luvas de pelica. Finalmente, numa tarde em Janeiro de 1963, o tal seguro foi finalmente liberado. Era uma boa quantia na época, mas não uma fortuna.

Pouco importava a tia Dora, pois segundo ela dinheiro não se esnoba. O dinheiro foi dado todo em notas. Não me perguntem por quê. Quando o pacote chegou, foi rasgado com sofreguidão em cima da cama. Vó Carmela olhava da porta do quarto, comigo ao lado, enquanto tia Dora e os filhos rasgavam os envelopes e jogavam as notas para cima, para o teto do quarto, gritando de alegria.

As notas se espalhavam pelo chão e pela cama num total abandono enquanto vó Carmela só abanava a cabeça. Até eu saí ganhando com a coisa, pois tia Dora me deu uma nota de 500 cruzeiros! Nos dias que se seguiram tia Dora saia de manhãzinha e só voltava á noite, carregada de pacotes. Comprou de tudo e mais um pouco.

Eram roupas (coloridas), sapatos, roupas para os filhos, coisas para a casa. Na venda do seu João comprou um presunto inteiro. Na padaria ia comprou do bom e do melhor. Foram varias vezes ao cinema e ao restaurante. Tia Dora comprou pacotes e mais pacotes de cigarros de qualidade.

No mês seguinte o dinheiro acabou. Acho que ela ficou um pouco surpresa por a “fortuna” não ter durado muito. Voltou à vidinha simples de outrora, comendo tomates fritos com queijo e fazendo pão em casa, fumando cigarros inferiores e ouvindo rádio á noite ao invés de ir ao cinema. Tia Dora teve o seu mês de gente rica e aproveitou cada minuto dele. Assim era minha querida tia Dora

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