CRECI@ – Centro de Referencia da Cidadania do Idoso e seu espaço – o Vale do Anhangabaú
15 de setembro de 2004
Cansadas, mas satisfeitas, Fátima e Margarete comentam:
– Os últimos convites foram entregues, tudo está quase pronto, agora só faltam os "finalmente".
– Ficaram tão bonitos!! E originais, porque foi usado o fac símile do convite para a inauguração do primeiro Viaduto do Chá, em 1892. E isso é que o diferenciou dos convites convencionais. Vou até guardar um de lembrança.
Fátima e Margarete no local e Sandra e Sueli à distancia, trabalharam durante meses e deixaram o espaço pronto para receber o público a que se destina, na maioria idosos. E agora estão prestes a ver o sonho realizado.Tudo é bonito no CRECI@: a fachada, o logotipo…Tudo.
17 de setembro de 2004
Inauguração oficial, o CRECI@ abre suas portas. Autoridades presentes, discursos de praxe, abraços de alegria por um objetivo atingido.
Instalado pela então Secretaria Municipal de Assistência Social, utilizou e disciplinou um espaço público para propiciar a idosos um centro de convivência, de lazer, de aprimoramento de conteúdos culturais, atividades físicas.
O espaço do CRECI@ é imenso: 1700m² em uma área nobre de fácil acesso , ponto central de convergência de bairros periféricos.
Seu espaço interno permite atenções individuais, encontros de pequenos e grandes grupos.
Tem um grande e um pequeno auditório que permitem a apresentação de grupos teatrais, corais e atividades de expressões corporais como Ioga e danças. Tem um telecentro, que cuida dos primeiros contatos dos idosos com a Informática. Tem uma sala de leitura e pequena biblioteca em parceria com a Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Tem sala de jogos. Para acompanhamentos jurídicos de questões referentes a idosos, há um plantão permanente de membros do Grande Conselho do Idoso. E espaços de descanço com pltronas confortáveis que convidam a troca de informações e papos informais, leituras do jornal do dia. Banheiros rigorosamente limpos, atendem também a deficientes físicos.
Uma lanchonete simples e simpática cuida da "fome" dos frequentadores e completa a estrutura de atendimento do local.
Enfim, tudo o que o idoso precisa para encontrar amigos, exercer sua cidadania e aproveitar da cultura que lhe é oferecida. Bem planejado sob a supervisão de especialista.
Nos seus primeioros meses já iniciou atividades culturais, foi sede de palestras, de Oficinas de Memória, saraus, sensibilização musical, apresentação de corais e danças.
Mas, que ponto central é esse, numa área nobre da cidade? Se dermos o endereço – Rua Formosa 215 – certamente não encontrarão. Falamos: fica no Vale do Anhangabaú, e vai ficando mais fácil. Mas se dissermos é em baixo do Viaduto do Chá, melhorou. E se acrescentarmos que é no espaço onde funcionou o restaurante da Liga das Senhoras Católicas, certamente as idosas vão localizar facilmente, pois muitas delas usaram esse espaço quando jovens. Porque nesse mesmo local, em 1926 foi inaugurado o restaurante da Liga das Senhoras Católicas – Restaurante para Senhoras (apenas senhoras)- que fornecia às senhoras e moças que trabalhavam no centro da cidade um almoço confortante a preços módicos. Fechado, deixou sem uso o espaço enorme que foi então reformado, adaptado e finalmentem 2004 transformado no CRECI@.
Vizinhança nobre, o CRECI@ está cercado pelo Teatro Municipal, Prédio do antigo Hotel Explanada, prédio histórico do ex-Mappin, uma refencia da cidade, Prédio da Light, Viaduto do Chá, Banespinha, – agora sede da Prefeitura – e o histórico avô dos arranha-ceus de São Paulo, o edificio Sampaio Moreira. Sobre ele, a Escola de Balé da cidade de São Paulo. Ao seu lado, o Museu do Teatro Municipal. E jardins, jardins e jardins cuidados pela Votorantim, cuja sede é agora no antigo Hotel Esplanada. Nada demais porque é o "jardim" a empresa. E moradores de rua como não podia deixar de ter.
Tarde de outubro de 2004
Um grupo atento, pranchetas na mão, olhos curiosos, percorre as redondesas do CRECI@ , o Vale do Anhangabaú, para ver o que sempre olhou mas nunca viu. É uma das atividades do grupo de Oficina de Resgate de Memória
Reunidos, trocam informações sobre o que conseguiram aprender.
– Vocês sabem alguma coisa da história deste Vale? Pergunta o jovem psicólogo que faz parte do grupo
– Sei o que aprendi na Oficina de Memória da d. Neuza: que ele foi formado pelo ribeirão Anhangabaú, que hoje corre canalizado aqui embaixo de nossos pés. Sei que o nome Anhangabaú vem de Anhangá que quer dizer diabo e por isso era conhecido como o rio da diabrura, rio das águas de maus espíritos. Sei também que o nome foi dado pelos índios e nunca foi mudado nestes 450 anos de São Paulo. Diz a outra participaante do grupo, a Adenilse
– Eu também quero falar alguma coisa diz Cleide. O Vale do Anhangabaú dividiu a cidade em dois patamares de comunicação dificil, onde os transeuntes tinham que descer e subir encostas íngremes para ir do planalto ao outro lado. E a primeira ponte foi feita em 1790, a Ponte do Lorena, perto de onde hoje é a av.Nove de Julho.
E continua o diálogo.
– Eu sei que nesse vale havia plantações de chá e por isso era conhecido como o Morro do Chá – diz Luzia
– Agora é a minha vez. E Souede fala no primeiro Viaduto do Chá que foi inaugurado em 1892, mostra fotos de sua treliça de aço e conta que ele tinha 240m de comprimento e 14m de largura. Era um viaduto particular e que cobrava 60 réis (três vinténs) de pedágio para os passantes.
Agora é Denise que fala:
– Eu posso acrescentar que esse primeiro viaduto não durou muito porque sua estrutura não aguentava os bondes elétricos que então apareceram em 1900.Trepidava muito e causava medo. O que veio a seguir foi o novo viaduto, agora em concreto e em 1938 já dominava o Vale.
– E o Vale, foi sempre assim como é hoje?
– Claro que não. Foi muitas vezes urbanizado, de acordo com as idéias de cada prefeito novo que era empossado. Até 1930 foi um parque, o parque Bouvard, com muito verde, paisagismo planejado. A partir de 1938 e em função do novo viaduto, o novo Vale tem função de agilizar o transporte sobre rodas e são projetadas três grandes avenidas tornando o Vale o cartão de visitas da cidade.
Eduardo também dá sua contribuição:
– A cidade continua crescendo, aumenta muito o número de habitantes, e o trânsito humano enfrenta perigo ao atravessar o Vale, competindo com o trânsito de carros. Novas idéias, e o Vale é levantado em 10 metros, criam-se túneis para os carros e o piso é ajeitado só para pedestres. No entanto, é possivel sentir sob os pés a trepidação dos carros que cruzam subterrâneamente o Vale.
Eunice e Gilcirene se ligaram mais a observações do Vale como está agora. Falam dos gatos, falam de Seu José que vende amendoim e cuida dos gatos, falam das amoreiras que quando carregadas deixam o chão roxo de frutos esmagados.
– Espera aí diz Mário. Ninguem falou da estátua de Carlos Gomes que fica do lado do Municipal. Pararam para olhar a estátua? Sabem que ela foi doada à cidade pela colônia italiana em 1922, em comemoração ao centenário da Independênica. E eu pesquisei mais e gostaria que vocês voltassem para observar. É um dos mais belos monumentos da cidade, composto de 12 estátuas feitas em mármore, bronze e granito pelo escultor italiano Luigi Brizzolara. Uma delas representa o compositor. As outras simbolizam a música, a poesia e figuras de suas óperas mais
importantes, como O Guarani, Maria Tudor e Schiavo. O maior destaque do monumento, no entanto, é a chamada Fonte dos Desejos. Com seus cavalos alados e chafarizes é toda feita de bronze.
E assim, somando as observaçõs dos integrantes desse grupo, foi possível conhecer o espaço onde está o CRECI@
Eles querem falar mais. Querem falar sobre o Municipal, sobre o Edificio Sampaio Moreira, sobre a importância do Mappin na vida social da cidade nas décadas de 40 e 50. Querem contar a história do Edificio da Light.
Mas, o tempo está esgotando e fica tudo isso para uma próxima vez.
16 de setembro de 2005
Festa de primeiro aniversário do CRECI@
Um ano passou e o CRECI@ foi atuante e fez juz àquilo para o que se propunha.
Nesse primeiro ano de vida, o Centro de Referência teve atuação diversificada com parceiros como SESC, Secretarias Municipais de Esportes, de Cultura, de Educação, de Saúde, Universidades como UNIFESP, PUC-, USP- e a ONG Instituto Laboridades sua mais araaecente parceira: desde março de 2005
Atividades:
.De Memória: agentes multiplicadores, e Resgate da Memória do Carnaval
.De expressão Corporal: Ioga, Dança, Sapateado, ginástica para idosos,
.De Expressão Musical: Canto coral. Violão
.Artesanato: máscaras, fantasias e adereços de Carnaval
.Xadrez
.Teatro e Contos
Palestras – sobre temas principalmente de saúde
Eventos
.Apresentações de danças, teatro, coral, musica
.Exposições de artesanato e mostras das Oficinas
.Festas Junina e Grito de Carnaval
E a festa de aniversario teve direito a bolo, parabens a vc, mas teve sobretudo uma apresentação ecumênica numa feliz idéia dos que administram o centro. Foi sem dúvida uma cerimônia tocante, com uma interação de católicos, judeus, muçulmanos, umbandistas, candomblé, budistas, protestantes…
Homenagens a todos os que contribuiram para o sucesso do empreendimento, todos sem exceção, desde o mais humilde faxineiro até a diretoria. Uma demostração de respeito e de cidadania.
E o CRECI@ continua a servir a seus propósitos.
(Escrita originalmente para a revista "reproposta" do curso de Jornalismo da Universidade Aberta à Terceiraa Idade da USP)