Andar livremente pela cidade de São Paulo, tanto a noite quanto de dia, foi um privilégio que tive e que me deixou agradáveis recordações. Na década de 70, eu no auge da minha juventude e como a maioria da moçada, palavras de hoje, adorava ir à sessão Maldita. Isso significava ir ao cinema a meia noite. A sessão terminava no mínimo às duas da manhã e isso não tinha a menor importância.
Andar a pé e tomar o ônibus elétrico era uma atividade que não nos diminuía em nada e nem tão pouco, nos punha em risco. Morava em Santana e como estavam construindo o metrô, para chegar à minha casa tinha que passar por sua construção por volta das três da manhã. Como? Sozinha, pois cada um dos meus amigos tomava sua direção. Não pensem que eu era abandonada pelos meus pais, pois não era.
Minha mãe me espera no portão ou às vezes dentro de casa para me dar aquela bronca, mas como jovem não tem medo no fim de semana seguinte, lá estava eu passeando pela Consolação, frequentando o Cine Bijou, que tinha mais pulga do que sei lá o que. Consertos na Igreja da Consolação, jantar no Piolin da Rua Augusta e muito mais. Estes eram alguns dos programas que nos legitimávamos como jovens paulistanos e tínhamos orgulho de pertencer à cidade. Foi desta forma que conhecemos a nossa cidade.
O máximo de cuidado que precisamos ter era com alguns pobres moradores de rua, que ás vezes nos deixava com receio de sermos roubados. Perigo, claro que havia, mas não a ponto de intimidar ou de impedir que vivêssemos com o sentimento que aquele espaço era nosso. Muito nosso. Éramos felizes e nossa cidade também.
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