Jaçanã e a Cinematográfica Maristela

Meus pais moravam no Bairro da Luz, na Rua Afonso Pena, até que tiveram que sair da casa espaçosa da Dna. Maria, para a Rua Sólon, no Bom Retiro. Pois meu avô materno teve que entregar a casa. E jogador como era, havia trocado umas terras valiosas que possuía no Jardim Europa, por outras terras no Jaçanã. Bairro distante, que no início só se tinha acesso a ele pelo trem da Cantareira, o famoso trem das onze, tão cantado por Adoniran Barbosa e os Demônios da Garoa.

Ficava perto de Guarulhos, pois haviam dito a ele que o futuro aeroporto iria ser ali e que as mesmas valorizariam muito. Realmente o aeroporto foi construído nas imediações, mais ou menos 20 quilômetros de distância e 40 anos mais tarde. Até os doze anos, passava as férias na casa de minha avó materna, que tinha um carinho enorme por mim.

Assistíamos todos os domingos o famoso circo do Arrelia, que com Pimentinha era a dupla de palhaços mais engraçada da TV. Com seu comprimento tradicional…Como vai, como vai, como vai… Que virou até música de carnaval. Gostava tanto dela que quando ela fez 80 anos, inventei um bolo chamado à escada da vida, que representava ela jovem subindo as escadas com roupa chique, conforme me contava, chegando à parte superior do bolo sentada com meu avô e seus quatro filhos e descendo os degraus, velhinha, para a posteridade.

Bolo este que me deu o maior trabalho, pois tive que levar de carro desde a confeitaria no centro até Jaçanã. Na primeira freada para segurar o bolo, que estava no banco de trás, sem querer enfiei a mão nele. E chegando lá, consertei o com glacê, acho que ninguém notou.

Para visitarmos, descíamos na estação e meu avô vinha nos buscar de charrete. Lá perto existia uma companhia cinematográfica chamada Maristela, que ocupava uma área imensa. Tentou seguir o sucesso da empresa Vera Cruz que pertencia a família Audrá, cujo Sr. Mario conheci quando realizei o filme épico de minha tia Eglantina e fui trocar informações.

Faziam filmes nacionais de sucesso como “O Comprador de Fazendas”, “Susana” e o “Presidente”, “Simão o Caolho” e “Presença de Anita”, que depois virou minissérie da TV Globo. Tinha em seu elenco artistas como Mazzaropi, Grande Otelo, Procópio Ferreira, John Herbert, Yvon Cury, Henriette Morineau e o impagável comediante Pagano Sobrinho. Algumas cenas externas eram filmadas na rua da minha avó e acredito que tenha sido figurante em muitos desses filmes.

À noite, como as ruas não tinham iluminação e existiam grandes várzeas por perto, a grande distração era caçar rãs com meus tios, que no domingo todos saboreávamos com toda família. Sua carne era muito saborosa. Os meninos da rua eram muito pobres e não conheciam o centro de São Paulo, por isso ficavam maravilhados com minhas histórias da cidade. A maioria inventadas é claro.

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