Nunca deixo de ressaltar a importância das pensões nos meus longínquos e saudosos tempos de estudante em São Paulo. Foi através de amizades nelas consolidadas que conheci a magia do teatro, a arte dos anônimos dançarinos, o deslumbramento diante de um quadro de Monet no MASP e tantas outras descobertas que foram, aos poucos, sedimentando meus conhecimentos.
Hoje quero revelar a minha primeira experiência no Hipódromo de Cidade Jardim. O Jóquei Club de São Paulo. Foi fundado em 14 de março de 1875 e as corridas eram realizadas no Hipódromo da Mooca, na Rua Bresser. Em 1941 transferiu-se para Cidade Jardim, a 8 km do centro. Fui conhecê-lo levado pelo Dráuzio, professor de Inglês e companheiro de pensão na Rua Baronesa de Itú.
Aconteceu na chamada reunião noturna das segundas-feiras. Minha reação inicial foi de espanto. Não imaginava que nesse mundo agitado das corridas houvesse tanta gente, acotovelando-se para fazerem suas "fezinhas". Padock, arquibancadas, restaurantes, bares e saguões para as apostas com filas imensas. Pessoas bem trajadas, educadas e, aparentemente, de bom nível social.
Eu era ignorante não entendia absolutamente nada referente às apostas. A ponta, placê, dupla, acumulada e outros tipos de apostas. Após o chamado cânter, que é a apresentação dos animais, os apostadores se dirigiam aos numerosos guichês para fazerem suas apostas. Meu amigo arriscava em todos os páreos; eu não tive coragem de aventurar meu contado dinheirinho, nem mesmo na vistosa égua Dama da Noite.
Minha participação foi apenas a de torcer pela sorte do Dráuzio e observar a reação das pessoas no decorrer das provas. Preocupação, ansiedade, nervosismo e alegria estampavam-se na face dos apostadores até que os animais cruzassem o disco de chegada. Dá-lhe Pierre, dá-lhe Rigoni! Emocionante!
Na volta para casa percebi a preocupação do professor. Durante o trajeto disse apenas uma frase: "Lá se foi a minha grana para comprar um aparelho de som 3 em 1".
Seis meses depois, passando pelo quarto do Dráuzio ouvi um som. Parei. A porta estava entreaberta. Frank Sinatra cantava com a velha e indiscutível classe "Lady Is A Tramp" num moderno e novíssimo aparelho de som Philco ”3×1”. Sorri feliz.
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