Severino o nordestino

Severino foi um dos que vieram no "caminhão de gado" como eram chamado os paus de araras que seu Pedro recebia de intermediários da exportação de nordestinos a São Paulo para serem distribuídos a construção civil em alta no inicio da década de 60.

Seu Pedro tinha um bar na Rua das Fiandeiras esquina da Rua Alvorada, e nos fundos do bar vários quartos sem banheiro (havia dois banheiros para todos no corredor), que ele alugava aos recém chegados com café da manhã, e almoço no bar a custo subsidiado já descontado do salário, até eles terem como se virar sozinhos.

Severino começou como a maioria dos nordestinos que vieram a São Paulo, iniciava o trabalho como servente de pedreiro. Mas não demorou muito para tentar outra atividade. Ele não gostava de ser chamado de burro, lerdo, e outros adjetivos. Os nordestinos que estavam em São Paulo há mais tempo ia orientando os novatos, para outra atividade mais rentável.

O trabalho que vinha depois de servente de pedreiro para quem ainda não tinha uma profissão definida, era de cobrador de ônibus. Severino já estudava a noite e estava bem alfabetizado, ele que veio do nordeste com a metade do curso primário feito.

A CMTC, empresa que monopolizava o transporte coletivo o recebeu, e ele fez um curso na empresa, passou nas provas, e foi contratado. Como cobrador ele tinha também o direito de tentar passar para o cargo de motorista, o que ia fazer gradativamente depois de ter a carteira de habilitação própria para dirigir um coletivo.

Severino conheceu Marilda também uma nordestina que trabalhava de empregada doméstica. Uma morena muito bonita. Mulher honesta que já estava até o pescoço com os incômodos de ser assediada pelos patrões.

Ela morava com uma amiga que era paulistana que também trabalhava em casa de família. Essa amiga tinha satisfação de ver uma nordestina guerreira que trabalhava de empregada e a noite ainda auxiliava a amiga em servir salgadinhos e bebidas em festas ou vernissage. Ela sempre ouvia da amiga:
– Nunca seja depósito de esperma de homem algum.

Ouvindo esse relato da namorada, Severino tratou de se casar o mais rápido. Severino estava em condições de prover uma família com dignidade, pois ganhava o suficiente para isso. E assim foi casaram-se e estavam felizes. Tinha uma vida modesta e com muito amor.

Severino, como todo nordestinho, era solidário a aqueles que vinham a São Paulo, e necessitavam de ajuda. Um dia estando no banco de cobrador do ônibus, viu passar pela catraca um amigo do nordeste. Muita emoção ao rever Batista, um velho amigo. Este recém chegado a São Paulo expunha todo o seu sofrimento de indício de vida em São Paulo, estava ainda numa república nordestina sem ganhar o necessário para pagar o que já estava devendo de comida e moradia.

Severino nem esperou um possível pedido de ajuda, já foi se prontificando. Antes, porém falou com a mulher. Ela não foi a favor, mas como seu marido tinha o escopo de ajudar os mais necessitados, mesmo à contra gosto permitiu que o conterrâneo fosse um hospede até se firmar na cidade.

Durante muito tempo Batista ficava dormindo até as 10 horas da manhã, enquanto Severino já a cinco da madrugada estava trabalhando. Trabalho que é bom Batista não se preocupava em arrumar. Marilda se sentia importunada com tal situação. O marido trabalhando e seu amigo dormindo até tarde. Mas o pior estava por vir.

Batista estava de olho naquela bela morena de rosto bonito e corpo de violão. Marilda começou a perceber que Batista olhava a com um olhar sensual. As investidas por parte dele foi ficando cada vez maior, e ela saia de todas sem contar ao marido o que estava acontecendo, pois cabia que ele apesar de ser muito bom, jamais deixaria barato tal coisa, e algo imprevisível podia acontecer.

E de um jeito maleável ia criticando Batista dizendo que ele não se esforçava em arrumar um emprego e ele tinha que tomar uma atitude para se livrar daquele aproveitador. As reclamações dela para com o amigo do marido foram se avolumando e ele dizia que ela implicava muito com Batista e sabia que mais cedo ou mais tarde ele ia arrumar um emprego e uma casa para morar.

Batista vendo que mesmo ao ser tentada a mulher não dizia nada ao marido, foi cada vez mais tentando levar ela para a cama. Já se achava dono da situação. E já dizia com todas as letras que não mais suportava o grande amor que estava sentindo por ela.

Sabendo que Batista levantava sempre lá pelas 10 horas da manhã, Marilda tomava banho logo cedo para não ser surpreendida por ele saindo do banheiro ou mesmo estando nele. Só que Batista um dia se levantou mais cedo e viu que ela estava tomando banho, e ficou encostado na porta esperando ela sair. Seu pensamento era agarrar ela e fazer sexo na marra.

Quando ela abriu a porta e viu que ele estava ali, fechou a, e falava para que ele saísse de lá. Batista dizia que a amava que queria ela para ele, fazendo juras de amor.

Eis que por um motivo qualquer Severino vem para casa mais cedo e vê aquela cena, seu amigo ajoelhado na porta do banheiro, com a calcinha da mulher nas mãos fazendo juras de amor, e ela gritando chamando o de sem vergonha, ordinário e traidor do amigo.

Severino vai a cozinha apanha uma faca e da varias facadas nas costas do amigo fazendo ficar por ali mesmo já sem vida.
A mulher saindo do banheiro em desespero dizia chorando:
– eu não disse que esse negócio de botar homem dentro de casa, não é certo?

Fato real.

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