Mooca de meus amores

Meu nome é Denise Placeres Marini e, lendo a Revista IN, a qual trazia um documentário sobre a Mooca, senti muitas saudades e resolvi contar a história de minha família.

Quando meus pais estabeleceram residência na Mooca, eu já estava a caminho, foram morar no IAPI no final de 1949 e eu, nasci em junho de 1950, vivi minha infância, adolescência, e me casei com Eduardo Marini, também morador da Mooca.

Meu pai Nelson Placeres, trabalhava na fábrica de cadeados Pado, e depois na Metalúrgica Paulista. Minha mãe Emilia Poli Placeres, ajudava nas despesas cortando tampinha para fábrica de borrachas Adnaloy.

Na época havia uma escolinha que começava a alfabetizar as crianças, era a garagem da casa onde a professora D.Dalvina morava, ali todas as crianças, a maioria do IAPI, aprenderam as primeiras letras, eu me lembro que quando chovia não tinha aula porque havia goteiras dentro da garagem, quando fazia muito calor era horrível, a gente rezava para Santa Rita, protetora da escolinha, todos os dias antes da aula.

Que saudades! Depois fiz o primário no Grupo Escolar Armando Araújo, minha professora chamava D. Leonor, eu gostava muito dela, minhas duas irmãs mais velhas, Maria Dagmar "Dag" e Maria Valentina, "Mara" como eram chamadas, estudavam na Escola Técnica de Comércio Brasilux.

Tinha a lojinha do seu Reinaldo, que vendia material escolar e nas festas juninas vendia biribinha e bombinha. Tinha a farmácia do seu Franco e a padaria do Neco meu pai, era um homem que gostava muito de participar da comunidade, estava sempre no meio dos jovens, nessa época havia uma associação chamada SACIM, não me lembro bem se era assim que se escrevia, meu pai era um dos diretores, em 1958 a associação SACIM fez um concurso de miss simpatia, onde minha irmã Dag foi eleita rainha.

Outra época que me recordo é que na copa do mundo de 58, poucos tinham televisão e a gente ouvia o jogo pelo rádio, mas o meu pai ligou um alto-falante do radio do nosso apartamento até o parque, para que todos pudessem torcer juntos, foi muito bom.

Lembro-me também de assistir o circo do Arrelia e o programa Pim-Pam-Pum na televisão da D. Tereza e seu Alfredo, eles fizeram até uma arquibancada de madeira na sala do apartamento e chamavam toda a criançada. Que saudades!

Nessa mesma época meu pai criou um clube de basquete, o Scarlat Club, camisetas vermelhas escrito em preto, minha casa vivia cheia de jovens nas reuniões e bailes que meu pai organizava, mas precisava de um campo para jogar e treinar.

Atrás dos apartamentos havia um campo cheio de mato onde fica hoje uma unidade do INSS, meu pai, os jogadores do basquete e outros diretores do Scarlat Clube resolveram arrumar para fazer a quadra de basquete, e assim o fizeram. Ali eles jogavam, treinavam, e faziam até festas juninas, tenho muitas saudades dessa época apesar de ser pequena ainda, eu adorava tudo isso e estava sempre participando junto com meu pai de tudo.

Por volta do ano de 65/66 havia um programa de rádio que se chamava Vitrola Mágica comandada por Enzo de Almeida Passos, esse programa percorria os bairros para fazer algumas apresentações, ele ficou ali na Praça dos Industriários por uns 15 dias, foi uma loucura, estavam lá, Elis Regina, Jair Rodrigues, Hélio Ribeiro, e na época o mais querido, Roberto Carlos, que estava no inicio de sua carreira, eu era fanática por ele, no meio da confusão cheguei a perder um sapato e uma tiara, e o pior, o ano escolar, pois eram todas as tardes, e quem estudava? Ninguém, mas com isso ganhei um autógrafo dele "A Denise 1.000.000.000 de beijos do Roberto Carlos" que guardei por muitos anos, para mim na época valia mais do que o ano escolar, era um delírio.

Lembro-me quando a Rua Cassandoca era de terra e tinha enchente quando chovia, pois ali passava um córrego, isso era muito triste, pois ali havia muitos cortiços, e em uma dessas enchentes a correnteza levou duas crianças dali, foi muito triste.

Depois que me casei, morei em outros bairros e até fora de São Paulo mas sempre voltava para a Mooca, meus dois filhos Eduardo e Elaine, estudaram no Externato São Rafael, e na Escola Estadual MMDC, viveram sua adolescência na Mooca na Rua Valentim Magalhães onde a gente fazia festa junina na rua, pintava a rua quando era copa do mundo e punha cadeira na porta para conversar, ainda tenho amigos lá. Hoje moro no Tatuapé.

Guardo muitas lembranças. E assim termino a minha história, espero ter sido de grande valia para o acervo do futuro museu da Mooca.

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