Um certo Tucuruvi, uma certa Vila Maria, um verão de 1962

Casualidade e sugestão? Surpreendido, custo a acreditar. Mas lembro-me bem do sol forte da tarde daquele sábado. E foi assim que aconteceu há mais de um ano; num repente, caminhando pelas calçadas irregulares de uma rua deserta lá pelos lados da Parada Inglesa: do interior de uma janela qualquer um fio de música se fez tangível, disparou fagulhas, o bastante para suscitar reminiscências. Ah, sim… Por sorte, ao ouvir os acordes familiares da antiga “The Wanderer” o pensamento voou longe para ressurgir, das sombras do passado, a visão primeira das ruas de um Tucuruvi daqueles dias pós-natalinos de um remoto verão de 1962; sem querer eu lá estava em meio ao então agitado cruzamento das avenidas Tucuruvi, Guapira, General Ataliba Leonel e a Rua Borges. Rua esta, aliás, cujo declive de paralelepípedos adentrávamos, de mudança, rumo ao Parque Rodrigues Alves; a bem dizer, uma pacata vila situada ao sul do Tucuruvi e que em mapas antigos recebia o nome de Vila Pedrosa.<br><br>O certo é que o Tucuruvi fizera parte da minha vida há mais tempo: fora justamente o meu chão primeiro; lá nasci e vivi até os três anos. Dada a pouca idade, nenhuma recordação retive da infância passada nas ruas Francisco Lipi e Francisco Manuel Guerra. Apenas algumas desbotadas fotografias de família, do início dos anos 1950, são as referências que restaram e nelas, ao fundo, vejo uma paisagem do bairro com poucas casas e seus morros descampados. Desta forma, após uma temporada (foram sete anos) morando na Vila Galvão e Jaçanã, retornávamos pela segunda vez às tranqüilas e obscuras ruelas do Parque Rodrigues Alves.<br><br>Dentre as impressões recorrentes de um perdido Parque que conheci, reporto-me sempre à visão de suas paisagens, ruínas e nascentes; uma espécie de memória da paisagem. Lembro-me ainda das manhãs de cerração. Por sua vez, em dias ensolarados, de céu aberto, descortinava-se um amplo panorama dos arredores; permitia-nos vistas e “skylines” hoje impossíveis de serem desfrutadas. O meu mirante predileto, sem dúvida, era a esquina das ruas Borges e Ricardo. Ficava nos altos de uma colina, uma das muitas existentes neste bairro de acidentada geografia. Víamos ao norte, única e proeminente, a cúpula e o campanário da Paróquia do Menino Jesus do Tucuruvi tendo ao fundo a muralha verde da Serra da Cantareira; já à direita do meu ponto de observação, no sentido leste, abria-se a vasta planície da Vila Constança, Jaçanã e adjacências, e no longínquo horizonte erguia-se numa colina a igrejinha branca da Vila Galvão. Mais à direita, mirando-se o sudeste, a igreja e a caixa d’água se sobressaiam nos altos da Vila Medeiros. E tinha mais: lá do topo da Rua Vicenza, vi o trenzinho da Cantareira percorrendo as sinuosas encostas da Parada Inglesa. Era um tempo de baixo adensamento e havia muitos terrenos ainda baldios. Quase todas as ruas do bairro, invariavelmente, de chão batido. As casas, então, em geral simples, tinham quintais com pequenos jardins e varandas. O certo é que a cidade não havia ainda incorporado a “cultura do puxadinho”. Talvez o código de edificações vigente fosse mais respeitado; talvez não.<br><br>Um outro ponto que me marcou são as lembranças de algumas ruínas que, à época, ainda estavam em pé. Eram três, as estruturas em escombros dos moinhos de vento perfilados ao longo da Rua Nilo Luís Mazzei. Os moinhos pertenceram, segundo se dizia, a uma antiga fazenda cuja sede existira nas imediações. E aqui pergunto aos antigos moradores: poderiam detalhar onde? Lembro também de uma velha mercearia instalada na esquina das ruas Paulo Avelar e Cruz de Malta; era uma construção que mantinha traços típicos de localidades rurais. Já na esquina seguinte da própria Cruz de Malta havia um grande bosque de eucaliptos ocupando todo um quarteirão. Sei que, no ano seguinte, todo o bosque foi posto abaixo dando lugar a um loteamento residencial com direito à abertura de uma travessa. Passado um tempo, a fábrica de condimentos Paladar se instalou nas imediações com seus cheiros de especiarias.<br><br>Retorno uma vez mais à confluência da Paulo Avelar com a Cruz de Malta: aqui é o local onde nasce o Córrego Paciência; mais precisamente, a sua nascente principal e dele, retive na memória uma cena de efeito pra lá de idílico e pastoral, ou, pelo menos assim a considerei, recém-chegado ao bairro. Caminhando por uma das suas ruas, vislumbrei numa baixada, um vergado salgueiro em sua vigília solitária beirando um regato. O regato, aliás, era uma das nascentes secundárias do Paciência, e suponho que brotasse nas imediações, justamente no quintal de uma propriedade que circundava o “largo central” da vila com um grande muro de cerca viva. Placidamente, o regato servia de limite aos respectivos fundos dos quintais das casas das ruas Cruz de Malta e Cândido Figueiredo. Naquele tempo era algo comum encontrarmos minas d’água pelas redondezas que, curiosamente, nasciam muitas vezes em locais de topografia acidentada. Infelizmente, o indolente pesadelo já espiava silencioso; e bem sabemos que tudo não passaria de uma doce ilusão: em pouco tempo os vários regatos e córregos da cidade se transformariam em esgotos a céu aberto, impactado pela urbanização sempre crescente. Um fardo a se lamentar no final; acontece que, nós, paulistanos de todas as épocas, nunca priorizamos a preservação dessas nascentes e cursos d’água.<br><br><b>Conhecendo os arredores e o zôo da Vila Maria</b>: Foi no mesmo verão de 62: uma bela manhã de domingo, a família disposta e fomos todos conhecer o pequeno zoológico da Vila Maria, conhecido como o zoo do seu Agenor. Ficava justamente na divisa com a Vila Guilherme. Após uma longa caminhada de subidas e descidas, lá estava a nossa espera, incrustada num vale, na Rua do Imperador. Logo na chegada, um alívio; frondosas árvores, na entrada, ofereciam uma sombra refrescante àquele dia tão quente! Além das jaulas dos felinos e dos grandes e agitados macacos, recordo-me de um orangotango que caminhava tranqüilo entre os visitantes. Uma indagação: que fim terá levado o enorme e solitário condor que ocupava uma gigantesca gaiola de ferro? Ficava sob as árvores da entrada, ao lado da residência do proprietário.<br><br>Dou um salto para 1972, dez anos mais tarde. Numa certa fria noite de junho, com um amigo, caminhávamos pela Estrada da Conceição, sentido bairro, e tomamos um atalho com destino à Rua Maria Cândida. O atalho em declive era uma rua de pouco movimento e mal iluminada. Vira e mexe, ouvíamos estranhos ruídos e rumores, vinham exatamente de uma grande área do bairro quase às escuras. Da baixada ecoavam urros, grunhidos, pios e toda sorte de alaridos, intercalados com momentâneos silêncios. À vizinhança acostumada, um acontecimento, diria, normal e corriqueiro; mas a nós, toda essa babel sonora fora uma inusitada experiência; suspense só desfeito, para o meu próprio espanto, quando reconheci sob pálidas luzes, a velha entrada do zoo da minha infância. Sei que pouco tempo depois, após um trágico acidente, fecharia suas portas. Que tempos peculiares, imaginar um zoológico junto a um tranqüilo bairro residencial; sem contar que nas proximidades havia um empreendimento tão intrigante quanto! Seu nome? Sociedade Paulista de Trote.<br><br><b>Estação Tucuruvi do Tramway da Cantareira:</b> O atual “largo”, situado no final da Avenida Álvaro Machado Pedrosa, esquina com a Tucuruvi, era onde ficava a antiga estação. Segundo minhas contas, foram apenas catorze anos de convivência com o lendário “trem das onze”. Algo cotidiano e familiar, desde os meus tempos de Jaçanã e Vila Galvão. Ato contínuo me revejo na plataforma da pequena estação, onde, por muitas vezes, aguardei o embarque no sentido Guarulhos. Sob um tilintar irritante de uma sineta que tocava próxima a uma cancela — ela bloqueando todo o trânsito da Avenida Tucuruvi —, eis que de uma curva, apitando com estardalhaço, surgia uma garbosa e resfolegante maria-fumaça estremecendo as paredes de antigos sobrados, e adentrava a estação reverberando todo o seu eloqüente esforço; afinal, uma vez mais suplantara o longo aclive em curvas da região acidentada da Paulicéia e Parada Inglesa. Ainda hoje, ao caminharmos pela antiga rota dos trilhos (tornaram-se ruas pavimentadas) notamos traços de sua passagem. São visíveis nas áreas mortas de esquinas e barrancos — ainda com uma razoável presença de vegetação —, e também nos costados dos quintais das casas (refiro-me à Rua do Tramway).<br><br>Instalado no final do século dezenove, este meio de transporte pré-metrô possuía dois ramais circulando pela Zona Norte da capital. A história do trem e do bairro mantém estreitas conexões. Willian Harding, engenheiro inglês que trabalhou na empresa que implantou a ferrovia, é considerado o fundador do Tucuruvi. Iniciou um grande loteamento na região em 1903, construindo a Vila Harding. Dela fazia parte o seu palacete, cujos fundos terminavam em um belvedere, próximo à linha férrea. A face oeste do belvedere possibilitava divisar uma bela vista de todo o vale da Parada Inglesa, seus arredores e no horizonte distante, alguma vista do centro da “Cidade”. Um parêntese: até os anos sessenta do século passado, “ir à Cidade” era uma expressão corrente, confirmando a existência de um centro. São Paulo hoje, ao contrário, está toda descentralizada, com seus vários centros: o financeiro, o comercial, cultural, de lazer etc. Mas voltemos à histórica mansão Harding: sei que na década de 1950 e início dos sessenta lá moravam os Fidalgos, uma família muito conhecida à época e grande proprietária na região. Vários prédios, ruas e mais ruas e vilas inteiras foram construídas por João Fidalgo Nunes. Eram as “casinhas geminadas do Fidalgo”. Nos anos oitenta, quando da ampliação do ramal do metrô, a então “mansão do Fidalgo” teve selado o seu final. Embora não morasse mais no bairro, lembro-me muito bem de uma polêmica travada à época: devido ao traçado previsto do metrô, sacrificar-se-ia uma das duas construções históricas vizinhas do bairro. De um lado, o então Grupo Escolar Silva Jardim, construído no final dos anos 1930; e, de outro, a histórica mansão, mais antiga. Por fim, sem outras opções, num bairro já carente em marcos históricos, decretou-se pela desapropriação e demolição da velha mansão e no local ergueu-se o prédio da Subprefeitura Santana-Tucuruvi. Menos mal, no balanço final: preservou-se o mirante (e presumo, seus pores-do-sol) e uma pequena praça pública foi construída no entorno do prédio: a Praça Arquiteto Flávio Império.<br><br>Completando o resgate daqueles dias, relembro do antigo campo do C.A. Tucuruvi e as festivas manhãs e tardes do futebol de várzea nos fins de semana. Ocupava o mesmo local da atual estação do metrô. Lembro-me também das manhãs do rolimã, nas férias, pelos descampados inabitados do Jardim França: um “descidão” asfaltado em L de uma travessa da Nova Cantareira. E mais: o que dizer da velha capela em ruínas, próximo ao quartel do Barro Branco? Fico sabendo que foi demolida. O mesmo aconteceu ao grande morro que circundava o complexo imobiliário do Cine Valparaíso: fora, durante muitos anos, uma pequena ilha verde na área mais elevada do bairro.<br><br>E aqui chego ao final deste inventário de ruínas que a minha memória pode conservar. Seja como for, hoje os tempos são bem outros, passados quarenta e sete anos; no entanto, o fortuito encontro com a antiga melodia, aquela cantada por Dion, trouxe-me de muito longe as recordações de um Tucuruvi dos meus incompletos onze anos. Afinal, o Tucuruvi, a Vila Galvão, o Jaçanã e novamente o Tucuruvi foram os lugares onde passei os dias e as noites da minha infância: “Nas esquinas mortas de outrora, ainda posso ouvir suas vozes, ressoam altivas; para sempre indeléveis. A memória de todos nós: uma serena e pacífica diáspora que nos condena, inexorável; ressoa sempre uma particular sensação de perda que em nós persiste, cuja ausência sentimos”. Ao menos então, quero me convencer que sim: estas palavras sejam uma forma de saudação a todos os amigos distantes que num tempo de nossas vidas compartilharam os mesmos ares e lugares. Eu assim espero!<br><br>Aonde quer que se vá, carregamos conosco as vicissitudes vividas a que damos o nome de memória. Mas ela — essa “porta entreaberta” e que tanto nos seduz —, às vezes (muitas vezes), nos prega peças; sobretudo quando o esquecimento tende a prevalecer. As lembranças do passado — essa movediça e inevitável cortina de fumaça dos sonhos, decepções ou obsessões que deixamos para trás —, apesar de toda a nossa teima e insistência, ainda assim, serão também as nossas sombras e os nossos brancos. Paciência!<br><br>E-mail do autor: [email protected]