A bordo de São Paulo

Estou a bordo de São Paulo há 61 anos e meio. A cegonha pousou para eu descer na Maternidade São Paulo no finzinho de 1947. Passado todo esse tempão, das São Paulo que vi se sucederem – saudosismo à parte – gostei mais da entre 1950 e 1960, aquela São Paulo que deu guarida à minha infância e adolescência.

Uma São Paulo mais bonita, e nem tão "metrópole" assim. Época aquela em que o Vale do Anhangabaú era realmente lindo, ruas do Centro ainda sem os horrendos calçadões (embora necessários)-os quais nem tanto "exclusivos" de pedestres; Parque Dom Pedro II, oásis verde, um parque de fato; Praças da Sé e Clóvis, autônomas, não-xifópagas como resultaram: a Clóvis, então, "praça" mesmo, mais que mero cantinho sem personalidade de logradouro.

Quem vivenciou, é claro que não esqueceu daquela atmosfera festiva, de grandiosidade, de enaltecimento do progresso manufatureiro: o inesquecível IV Centenário, da "cidade que mais cresce no Mundo"! Coração fabril do País.

Naquela paisagem de 50 a 60, eu, moleque e pré-adolescente gostava dos transportes coletivos bonde, ônibus, trólebus e trens de subúrbio que cortavam a Cidade, me impressionavam. A CMTC, em particular presente nos quatro cantos da Paulicéia.

Para mim, era curioso que certos ônibus chegavam até a caracterizar o transporte em certos lugares. Para os lados de Vila Mariana, só dava ônibus ingleses ACLO, da CMTC; para os lados de Perdizes, Sumaré e Lapa, eram os Mack e os coaches americanos TDH, que partiam da Patriarca ou da Ramos.

Compartilhando com a CMTC do dia-a-dia de levar São Paulo às fábricas, ao comércio, às escolas, aos hospitais, ao lazer – enfim, transportar São Paulo à vida… Ônibus que acompanhavam a expansão urbana, lançando novas linhas como tentáculos, por grandes descampados…

Agora nos anos 70, trabalhando no SENAI, é que vim a conhecer as grandiosas instalações (garagens e oficinas) da CMTC. Onde a empresa não só fazia manutenção de ônibus, trólebus e bondes como, desde o começo de 50, montava carrocerias de ônibus, ônibus do "tipo padrão", diziam. No interior dos veículos, podíamos ler: "Rua Martins Fontes, 230", o coração administrativo.

Aquilo era um exército de gente, hein! Engenheiros e técnicos; mecânicos especializados e eletricistas; torneiros, ferramenteiros, retificadores; funileiros-lanterneiros, pintores e letristas. Tapeceiros-estofadores, borracheiros, marceneiros e carpinteiros. Motoristas, motorneiros, fiscais, inspetores de tráfego, cobradores; um batalhão de pessoal administrativo, médicos – e, com certeza, mais gente de que eu tenha me esquecido! Um colosso ou não?

Uma escola de formação profissional e aperfeiçoamento, escola SENAI-CMTC, onde hoje o belo (embora pequeno) Museu; banda de música; CMTC – Clube; clube de praia…não era para qualquer um! Nas ruas, eram vistos possantes caminhões – guinchos da CMTC – os GMC "Mastodontes" ou Mack, ambos americanos – de rebocar bondes e ônibus, quebrados, de volta às garagens. Nos anos 60, lembro dos "ônibus auto-escola", Fordinhos a gasolina que a CMTC "encampara" em 47 – e no fim da vida útil, utilizados para treinar motoristas, em ruas da Liberdade e da Bela Vista.

Por meio século, todos aqueles trabalhadores da CMTC inegavelmente transportaram o progresso de Piratininga – progresso que, por certo, credita a eles algum reconhecimento: a CMTC é memória de São Paulo.

"A Gazeta", 18/09/53, página 24: "Até o fim do mês, a Campanha de Melhoria totalizará 130 novos veículos… Em visita às instalações da General Motors, o prefeito municipal (Jânio Quadros) percorreu a linha de montagem onde se encontram os ônibus encomendados pela CMTC e que farão parte da frota de 130 veículos que desfilarão pela Cidade no próximo dia 30…".

Desde moleque, viajei nesses ônibus. Os quais marcaram época no transporte coletivo paulistano. Rodaram por mais de uma década na Cidade. Quem andou, lembrará: o ônibus diesel Coach brasileiro, era o GMB-ODC. Eu gostava de me instalar lá no fundão, bem na janelinha da última fileira de assentos estofados, marrons.

Quando na Regente Feijó e na Eduardo Cotching, a caminho de Vila Formosa, nos ODC da Cometa. Que partiam ao lado de fábricas da Cajuru, já pertinho do Largo do Belém, disparavam pela Álvaro Ramos, até tangenciar a Água Rasa… Nesses mesmos "ônibus diesel coach" brasileiros, andei nos amarelos da Alto da Mooca. Que saíam da Clóvis, próximo aos Bombeiros. Já na Vila Mariana, deles só havia os da linha Norte-Sul, vermelhões, da CMTC. Tais ônibus, da CMTC, trafegavam mais nas zonas Norte e Leste.

E na estrada da vida? Gente "do meu tempo" não se esqueceu: quem neles viajou, na Cometa! Anos 50 e 60. Caracterizaram linhas tais como de São Paulo a Jundiaí, Campinas, Lorena, Sorocaba, São Carlos… Os ODC eram a própria cara da Cometa! Desde quando partia da Avenida Ipiranga, antes de ser erguida a primeira Rodoviária, muitos hão de lembrar.

Transporte também é memória; memória envolve nostalgia; e quem é nostálgico daqueles velhos coaches brasileiros, esse nostálgico bem será capaz de ouvir. Um rugido, um motorzão diesel. Pois basta passar à frente daquela que foi a Rodoviária – a de pastilhas e teto coloridos, a da Júlio Prestes, defronte à Sorocabana. Lá do fundão do prédio da ex-Rodoviária, parece que ecoa o rugido de motor de um GMB-ODC. Como ecoava há mais de 40 anos.

Talvez algum dos da Cometa ou da Piracicabana. Se não, da Pássaro Marrom – então marrom de fato, faróis amarelos, "de neblina", querendo disparar para o Rio, pela Dutra… Para ouvir, basta ajustar o botão de volume dos ouvidos e ter um pouco de imaginação.

Imaginação, nostalgia e memória: todas a bordo do coach. Por sua vez, a bordo de São Paulo…

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