Meu querido pai

Em memória de um ferroviário da antiga São Paulo Railway (SPR), meu pai, que entrou para a ferrovia em 1.916 como auxiliar de telegrafista. Foram quarenta anos, dedicados ao antigo e extinto telégrafo Morse, até a data de sua aposentadoria em 1.956.

Estação da Luz. O trem espera. Por que não preparar a mala de viagem? Ele, com total conceito do tempo, cujas barreiras transpôs de um salto, também aguardou tranquilamente, pois ele tomou um dos trens anteriores a mim.

E eu, como um pássaro que volta ao ninho antigo depois de um tenebroso inverno, quis também rever o lar paterno, o meu primeiro e virginal abrigo. Entrei. Um gênio carinhoso e amigo, o fantasma talvez do amor paterno, tomou-me as mãos, olhou-me grave e terno e, passo a passo, caminhou comigo em torno da sala de visitas da casa, era esta mesma sala, se me lembro e quanto! Em que a luz difusa e noturna à claridade espargia em todos os cantos e minha mãe coitada, derramava um derradeiro e último pranto. A lembrança jorrou em ondas. Resistir quem há de ser? Uma ilusão gemia em cada lugar, e chorava em cada canto da sala, muitas saudades de ti meu pai.

Pai, muitos já te esqueceram neste mundo ingrato, só eu, meu querido, só eu me lembro, daquele triste dia do mês de Agosto em que da cova te deixei no fundo. Desde esse dia um látego iracundo mundo açoitando-me a vida, por isso que de ti não te esqueço nunca, nem com ninguém te meço ou confundo. Quando ao redor dos brancos mausoléus perdido, entre as ramagens escondidas do cemitério São Paulo, entre os olmeiros estendidos sua copa para o céu, choro a minha acerba desventura, e eu tenho também a sensação de já ter morrido. E até o meu querido amor, se me afigura, ao beijar a lápide nua de teu tumulo esquecido, que beijo nesta desventura suprema a minha própria sepultura.

Ninguém, apenas eu meu pai, seguiu os teus passos, humilde criatura. Tu atravessas-te no silencio escuro de teus dias de sofrimento, desta vida sempre presa em constantes deveres e chegas-te ao saber dos saberes, tornando-te mais simples e mais puro. Ninguém te viu o sentimento inquieto magoado e oculto, que o teu coração se desgastou no mundo, mas eu, que sempre te segui os passos, sei que cruz infernal prendeu-te ao mundo. E o teu último suspiro, como foi profundo, meu saudoso, meu querido amado pai.

E-mail do autor: [email protected]