Tio Augustinho

Tio Augustinho era um tipo curioso: gordinho, careca, baixo, de pele morena e sem papas na língua, um típico italiano do Bixiga. Sapateiro, filho de Assunta e Francesco Luzzo, adorava fumar um cachimbo.
Já o conheci idoso e com seus dois filhos criados, que se chamavam: Paschoal e Francesco, apelidado de Pipi, pois quando criança fazia xixi na cama.
Augustinho era casado com Joaninha Coffoni, uma forte e engraçada matriarca, que gostava muito de economizar, guardando e escondendo dinheiro e comestíveis dentro de seu colchão.
Augustinho quando jovem lutou na guerra da Itália contra a Abissínia. Mesmo não tendo nascido na Itália, como sua irmã Acheroppita, fez questão de se alistar e ir para a guerra.
Na época de seu retorno ficava uma fera quando o chamavam de: "facceta nera" (cara preta) ou quinta coluna.
Foi um dos fundadores, na década de 30, juntamente com seus primos e amigos do clube de futebol: "Herói Brasil”. O clube de futebol teve seu auge na década de 40 e terminou na década de 60, quando ele veio a falecer. Era composto por moradores do Bixiga e vários parentes seus. Augustinho era uma figura marcante, pois gostava de esquentar a torcida e não aceitava nem um pouco, que o time perdesse. Quando isto acontecia, ele queria quase bater nos jogadores e colocava os troféus conquistados, no meio da rua. Porém, após discursar, xingar e discutir, logo se acalmava com um bom copo de vinho.
Considerado como um personagem folclórico costumava atirar fôrmas de sapato, quando o time perdia para qualquer adversário. O campo de futebol ficava em um morro e quando a bola caía na rua de cima, era improvisado um elevador diferente, com manivela e a mesma descia dentro de um cesto de arame. Dos jogadores que compunham o time, podemos lembrar: de Lino Cadeieiro, Vicentão e Vincenzo de Avolo, conhecido como Vicente Diabo, dentre outros.
A torcida sempre ficava de olho, quando Vicentão era o juiz, pois os times adversários sempre perdiam. Gustinho, também como era conhecido nosso personagem, uma vez ou outra ficava enfurecido com o goleiro, pois o mesmo misturava folhinhas diferentes no fumo de seu cachimbo. Quando isto ocorria, ele gritava feito um louco e corria atrás dos jogadores, caso perdessem a partida. Quando o time ganhava, a comemoração era feita na vila da Rua Almirante Marques de Leão, na casa onde residia. Era uma alegria, ele cantava, dançava e vibrava como ninguém. Ficava tão feliz que tomava muito vinho e queria jogar bola ali mesmo. Sua irmã, Dona Gemma, então pegava a bola e ele prontamente bradava: "não me encha os botões". Dona Joaninha para a festa acabar logo, aproveitava a ocasião, para esconder alguns queijos e salames no colchão.
Essa história é uma forma carinhosa de lembrar a sua rica memória.
"Recordar e registrar o passado é fazer viver nos corações: emoções, sonhos e saudades, criando novos valores."

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