"Cola" tomou Dexamil

O bailinho estava apático. Eu e João (o "Cola") estávamos pensando em ir embora, procurar outras paragens ou dormir cedo. As duas cuba-libres, e o fogo paulista com gim não haviam nos animado. Resolvemos ir.
Estávamos nos dirigindo à porta quando o Nelsinho disse: “- Vão embora coisa nenhuma. Tomem esses dois comprimidos, o ânimo irá retornar”.
Recordo como se fosse hoje, eram no formato de coração, verde.
Deu dois para cada um, dizendo que era para espantar a tristeza rapidamente. Cola engoliu os dois de uma vez. Em questão de segundos a melancolia sumiu, como se os comprimidos fossem o atual Doril. A partir daí Cola não parou de dançar. Bailava seu requintado figurado até com as damas que não o acompanhava. O Passo do quatro, estilo de dança solta, recém aprendida com o pessoal do bairro do Cambuci ele exibia com maestria, introduzindo novos movimentos a esse gênero de dança.
Mesmo aquelas minas "reguladas" as mais frescas, que não deixavam chegar muito perto durante a dança ele não ligava, atracava com a mão esquerda a cintura delas, segurava a mão direita da garota junto ao seu peito, aproximava os corpos juntinhos e dançava puladinho, quadradinho, figurado com passos e posições variadas. Tudo na vida dele mudou depois daqueles dois comprimidos. Tornou-se um exímio bailarino.
Com receio e insegurança tomei somente um comprimido, guardei o outro no bolso da calça. Bailei aquele sábado até as duas de "lá matina". Lembro-me que tocando havia um rock-'n'roll, do "Little Richard", "Tutti Frutti", dancei até com as pernas pro ar, cantei em Inglês sem saber uma palavra da língua britânica.
Fui para casa às seis da manhã. Não conseguia dormir. Fui para o fundo do quintal e comecei a dançar sozinho. Fiquei assustado, fui fazer xixi e mijei no ralo. Estava em estado de completa euforia. Peguei o par de chuteiras e fui jogar futebol no Grêmio da Ruf, onde trabalhava. Confesso foi a melhor partida da minha vida. Corria mais que a bola. Acabei com o jogo, conforme dito futebolístico. Fiz dois gols um de falta e outro de bicicleta. No vestiário ouvi vários jogadores adversários me elogiando sem que houvesse notado minha presença ao lado. Retornei pra casa, tomei banho, almocei macarrão acompanhado de um extenso bife a parmegiana, tomei uma cerveja junto com o comprimido que restava. Fui ao Clube Homs na Avenida Paulista. Dancei o que tinha direito e o que não tinha. Retornei pra casa à meia-noite a pé, quando passou o efeito do rebite, os comprimidos. Desabei no sofá da sala e dormi. Antes tomei um copo de leite gelado.
No meio da noite com o corpo todo dolorido acordei com o som intermitente da campainha. Era meu amigo João, o "Cola" que com profundas olheiras gritava alto, debaixo da janela:
_ Romero, estou dois dias sem dormir. Já tomei três litros de leite e não passa o efeito. Que faço?
Quase que chorando…
_ Nunca mais aceitamos nada do Nelsinho.

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