Retôrno sentimental ao Dom

Já contei de minhas andanças por São Paulo, no início dos anos 60. Geralmente, era comboiado nelas pelos amigos Julio e Arellano, do nosso estúdio no Martinelli. Arellano era o expert em restaurantes, botecos e tudo o mais que se referisse ao Centrão.

Graças a êle, conhecemos um dos melhores lugares em relação custo/benefício. Um discreto restaurante na R. Aurora, atrás do Cine República. Uma vitrine, com um cartaz ostentando o cardápio na frente, e a porta abria-se para um balcão em forma de L, com confortáveis assentos acompanhando o contôrno.

Era o Dom, muito conhecido e frequentado na época, mas que desapareceu quase sem nenhum registro. Não o luxuoso D.O.M. atual, do Chef Alex Atala, nem Don Curro, Don Pepe di Napoli ou outro nome espanholado. Era Dom, e só.

Em certa fase, íamos lá quase todos os dias. O cardápio era simples, mas honesto. Lembro-me pedindo meia porção de massa e meia de carne assada. Tudo bom, e bem barato.

Por trás do balcão, e tendo pelas costas elegantes espelhos com sereias e motivos marinhos jateados, uma equipe só de garçonetes, simpáticas e ágeis. Não tardei a iniciar uma paquera com uma delas, sexy e com rosto de maçãs proeminentes, traços de sua herança índigena. Para mim, era "La Boliviana".Lembrava um pouco a Jennifer Lopez,embora não tão bela quanto.

Ainda era muito jovem e tímido nesta época, e Arellano, eterno gozador, dizia maldosamente que, à presença dela, eu me atrapalhava todo, trocando as facas pelo garfo.

Mas foi o trabalho excessivo quem surgiu, para atrapalhar êsse forte esbôço de relação.

Estávamos em 61, e soubemos, que sem termos participado do processo, estava em estudos um projeto de nacionalização das histórias em quadrinhos. Achamos que, como trabalhadores do setor, teríamos de tomar as rédeas do processo nas mãos.

Nossa modesta sala 1922 do Martinelli tornou-se, repentinamene, um comitê de luta. Pensávamos em fazer uma associação, que exagêro, que englobasse todo o gênero de desenhistas. Um absurdo, como logo veríamos.

Assessores governamentais, reportagens em jornais, entrevista na TV Tupi com os radialistas TicoTico e Maurício Loureiro Gama. Não tínhamos mais sossego.

Finalmente, uma apresentação no programa "Brasil 61", de Bibi Ferreira. Lá fomos á TV Excelsior, na Rua Nestor Pestana. Na ocasião vieram também desenhistas do Rio, como o famoso Péricles, criador do "Amigo da Onça".

O pior era o volume de curiosos e aspirantes a desenhistas, que vinham à nossa sala mostrar suas pastas, boas ou más. Tinha de tudo, até alguns que se julgavam extraterrestres.

E nosso trabalho? Não havia mais tempo para nada. As editoras, assustadas com aquilo que lhes parecia uma Revolução Francesa, cancelaram os pedidos. Bom, já não conseguíamos mesmo trabalhar. Com esta confusão toda, não é que a lei de porcentagem de nacionalização foi aprovada?

Nossa alegria durou pouco: dias depois Jânio renuncia e foi o fim de nossos sonhos.

Só aí – "em primeiro lugar o Dever!",disse um dos companheiros ao me ver tentado a trocar a luta pela bela boliviana- é que consegui retornar ao restaurante Dom.

Fui então esperar, na saída, La Boliviana, que não via há bom tempo.

Nem tínhamos telefone na nossa sala, por incrível que pareça. Os meios de comunicação eram precários, a anos luz ainda dos celulares, internet e fax.

Assim, sem que eu soubesse, muita água já havia corrido debaixo da ponte da Praça da República. Fiquei por ali, esperando na porta, só para ter a desilusão de vê-la saindo com um outro.

Nunca mais voltei ao Dom.Adiós,Boliviana! Hermanos, que tiempos aquellos!