Sessão Pipoca

Em 1950, quando Assis Chateaubriand inaugurava a TV Tupi em São Paulo eu era menino e vivi estas transformações que ora relato; peço a paciência e a compreensão dos caros leitores. Havia poucos aparelhos na cidade e as pessoas iam ao centro da cidade, postavam-se diante das vitrines das grandes lojas para ver aquela maravilha que revolucionou os meios de comunicação no Brasil e no mundo. Aos poucos as famílias foram adquirindo a magnífica geringonça e era uma verdadeira festa. Como só havia um canal, não se discutia em qual deles sintonizar. Os felizes proprietários e a vizinhança se acotovelavam na sala de visitas e não tiravam os olhos da telinha, que ocupava lugar de honra, com imagens em preto e branco, sujeitas, nos dias de mau tempo, aos inconvenientes chuviscos, para tristeza da galera. O silêncio era absoluto e se ouvia apenas o ruído do mastigar das pipocas, obrigatória nessas ocasiões. Era uma verdadeira amostra de amizade e confraternização e a língua portuguesa ganhava um novo vocábulo: televizinho. As pessoas se conheciam e se cumprimentavam. <br><br>Lembro-me que meus pais demoraram bastante para adquirir a preciosa e admirável novidade e eu era um dos muitos "habitués" da casa de Dona Rosalina, pessoa alegre e generosa que acolhia sorridente toda a vizinhança; de seu carrancudo marido não me lembro sequer o nome. <br>Aos poucos a sala foi se esvaziando, esvaziando e cada família já realizara o sonho de ter sua própria TV, adquirida em "suaves prestações" nas Lojas Pirani, Mesbla, Sears Roebuck, Cassio Muniz, Clipper e tantas outras que permanecem apenas na saudade de um tempo que já se foi.<br><br> Tempo em que as pessoas se reuniam nas calçadas, com suas cadeiras e passavam o dia a limpo: a operação de apendicite do rapaz da casa amarela, o noivado da moradora do sobrado da esquina, o novo automóvel do gordo do número 174, o final de semana nas águas límpidas e azuis das praias de Santos, o futebol, o cinema, tudo, enfim era passado em revista. Hoje o chefe de família depois de um dia de trabalho estafante adormece, solitário, na frente da TV. Em cada quarto um aparelho; cada um por si; solidariedade, confraternização – já eram!<br><br>Tempo em que o futebol aos domingos, sem brigas ou torcidas uniformizadas, um bom filme nos elegantes cinemas do Centro, uma boa pizza nas velhas e aconchegantes cantinas do Brás e do Bixiga ou o baile no clube do bairro eram suficientes para a alegria e a felicidade dos paulistanos. Nossa qualidade de vida se esvaiu pelo ralo da modernidade e o computador veio para completar a obra de isolamento das pessoas. Comunicamo-nos com habitantes da Nova Zelândia, de Trinidad Tobago, de Manhatan ou de Madasgacar e não sabemos o nome de nossos vizinhos.<br><br>Minhas incursões pela TV limitam-se aos programas de notícias, ao esporte e a alguns programas da TV Cultura. Sou um telespectador exigente e rabugento. Na verdade, mais rabugento do que exigente e concordo com o saudoso Stanislau Ponte Preta, que sabiamente sentenciou: "A melhor coisa da televisão é o botão de desligar". Aplausos!<br><br><br>E-mail do autor: [email protected]<br>