Nas ruas de São Paulo o sertão está presente; vivo em cada esquina. Seja no sotaque de sua gente, seja nos cantadores urbanos que pululam aqui e ali, nos cegos que esmolam, nos artistas de rua, talentosos às vezes, mas sem oportunidades.
Nos trens, nas praças, nos botecos é sempre possível ouvir-se uma cantiga daquelas que nos transportam a recônditos lugares. Praça da Sé, Rua Direita, Largo da Concórdia, um mundo!
Sanfoneiros – figuras insólitas, daquelas que a gente olha e diz "esse sem dúvida é sanfoneiro" – violeiros de porte marcante; outros pequenos e franzinos, sem nenhum traço de herói romântico, mas com um vozeirão enorme.
E assim, em São Paulo e seus arredores, pode-se ter todo um contato com esse mundo ligeiramente irreal, mas tão nosso.
Eu, que costumo ouvir músicas dos mais diferentes segmentos, dias atrás, por exemplo, estive em uma festa caipira no estilo mais tradicionalista, na chácara dos 13, em Mauá. Cantando uma variedade de músicas clássicas, Paulinho e seus amigos (Valdécio, Luiz Carlos entre outros), todos excelentes cantores. A certa altura, interpretaram "Amargurado" do Tião Carrero, essa música triste, depressiva, corrosiva, que deixa transparecer um mundo de abandono e solidão.
O caipira estilizado, aquele apresentado em festas juninas, em programas humorísticos, geralmente é alegre, brincalhão, gozador, porém, os caipiras de verdade quase nunca são assim. Mazzaropi captou isso com perfeição; Aloísio de Oliveira e Renato Teixeira também. O caipira é triste e "amargurado", "A sementinha", "sina de violeiro", são músicas que mostram isso com clareza, leveza e arte.