As Margens de São Paulo

– Veja!
– O quê, vô?
– Ali…
Era uma pipa, beirando a antena de celular. Nos prédios ao redor, um silêncio dominical. O avô em pé, preso ao neto que alcançava sua cintura, saltando os olhos do parapeito nas alturas do vigésimo andar.
– Dá medo, né, vô?
– Dá, disse, afagando os cabelos do garoto.
Tinha 68 anos; o garoto 5. Este morava com a mãe em São Miguel Pta; o avô, diretor aposentado de uma grande empresa de celulose e papel na região da grande São Paulo, nas alturas da Anália Franco.
– Veja lá, o rio.
– Onde, vô?
– Venha!
Colocou-o ao colo e apontou.
– Lá, bem fininho.
– Onde estão os carros passando?
– Sim, aquele é o Tietê. Quando criança eu nadei naquele rio e pesquei também.
– Nunca nadei no rio. Só no clube e na praia.
O avô sorriu nos lábios seu passado e saboreou o Tietê lá longe, mas tão próximo, dentro de sua bela cobertura.
Um avião cruzou o céu onde brilhava o mesmo sol de sua infância, nos caminhos de terra ao longo dos traçados do rio, cheios de esterco que recolhia para seu pai. São Paulo era um sonho mais que um mundo, pensou.
Resgatou a memória de quando veio do Alto de Pinheiros para o Itaim Pta. de carroça, nos anos 40, com seu pai, seu irmão e sua irmã, subindo a Rebouças, descendo a Consolação, passado o Viaduto do Chá, Rua Direita, Pátio do Colégio, Celso Garcia e a estrada São Paulo-Rio. Saíram meia-noite e chegaram às 3 horas da tarde. Teve orgulho de beber água do rio Pinheiros e Tietê. Trazia ainda as histórias de sua mãe, sobre o rio, que foram suas, do rio limpo, refrescante, orgulho da cidade.
– Não sabia que tem rio em São Paulo.
– Tem muitos, e falou os principais.
– Onde estão eles?
Queria responder que estão aqui, apontando para a memória, mas disse nada. E pensou: deslizando adormecidos.
– Tem peixes?
– Não.
– Não? Mas nos rios não têm peixes?
É verdade, pensou, os rios possuem peixes, mas guardou para si.
– Venha, vamos conhecer os rios.
E pegou o garoto. Disse para o almoço da família que iriam passear um pouco, comessem sem eles, sem ninguém entender. E de carro cruzou os principais rios de São Paulo: Tietê, Pinheiros, Tamanduateí.
– Por que ninguém pesca, vô?
O avô sabia responder sem querer saber. Foi feliz na sua infância e não mais enxergava no neto a liberdade que ele teve, enchendo sacos de esterco para adubar a terra para a plantação de verduras que vendia com sua irmã na carroça pelas ruas do Itaim Pta. Teve vontade de ir para o interior de São Paulo. Descobrir um rio que tem peixes e nadar com o neto para ser e deixar aquela criança também ser sua criança dela.
O domingo estava claro, bonito, risonho, irradiante. Voltavam do passeio; ainda não tinham comido nada.
– Tô com fome, vô.
– Eu também, e sorriu, agradecendo silenciosamente ao neto a redescoberta de sua verdadeira São Paulo.
– Vamos no McDonald?, sugeriu o neto.
O avo sorriu seu sorriso meio amargo e meio doce. E, a caminho de casa, parando lá no Shopping Anália Franco, teve a revelação de que parte de sua história, ou história deles, ia sendo construída pela força transformadora dessa cidade fruto de seus belos e adormecidos rios. Do passado, do futuro e desse presente tão enigmático quanto a sua São Paulo deles.

Flávio Notaroberto