Meu pai era um homem boêmio, bonito, um sedutor. Excelente pai, péssimo marido. Casara-se aos dezessete anos e aos dezoito já era pai. Com certeza não estava preparado para o casamento.
Casado, estudava à noite na escola Getúlio Vargas e no Liceu de Artes e Ofícios, não necessariamente nesta ordem, mas isto é um mero detalhe porque essa instabilidade fizera com que os dois, já casados, ficassem morando na casa da minha avó.
Minha mãe se sentia segura naquela casa, uns irmãos ainda solteiros, a mãe…
Não sei se esse fato ou o fato de frequentar escolas noturnas, ou se isto tudo junto, fez com que meu pai não tivesse pressa de chegar, a bem da verdade só chegava em casa altas horas da noite.
Entrava ano e saía ano e nada de terminar os cursos, que se sucediam um após o outro, de formaturas nunca se ouviu falar e também nada de diploma. Saía cedinho e retornava altas horas… Vez ou outra confessava, em meio às brigas, confessava ter estado no Cassino de Vila Sofia ou no Som de Cristal, mas só um pouquinho porque um professor faltara e tivera uma janela, mas só para apreciar porque era um apreciador de danças, de músicas, um dançarino compulsivo, fanático. Ou para um ensaio…
No Carnaval costumava desaparecer, vestido de marinheiro, lança perfume, confetes, livrinho com os sucessos daquele ano enfiado no bolso, e só aparecer na quarta-feira de cinzas.
Saía no Bloco do Lavapés, no Cambuci.
Estas coisas custavam-lhe brigas homéricas. Dias e dias de silêncio dentro de casa. Todos proibidos de dirigir-lhe a palavra porque elas eram duas e eram bravíssimas…
No Carnaval, por exemplo, minha mãe e minha avó desmontavam a cama e ele dormia sentado em uma cadeira na quarta-feira de cinzas, até quando saía, na parte da tarde, para o trabalho…
Em tempos comuns, ao soarem as vinte e três horas, o seu prato com o jantar era jogado na lata de lixo, as luzes apagadas, a casa escurecida e todos dormindo. O miserável do filho que abrisse um olho sequer era execrado, punido com proibição de brincar na rua, sem poder ir ao cirquinho montado no terreno baldio, muito menos no parquinho cuja montanha russa, o dangler, a roda gigante nos fascinavam e nos faziam contar os dias até o domingo quando éramos liberados, e isto para mim e meus dois irmãos era tudo o que sonhávamos.
Adorávamos aquelas ruas de terra, as brincadeiras de mãe de rua, de cabra cega, de bicicletas, de pega-pega…
O bairro à noite era escuro, o calçamento e a iluminação da Avenida Lins de Vasconcelos ia só até a metade da Rua Mesquita. Era o Cambuci e a vila era a Monumento, e os anos eram os quarenta e alguns quebrados, o mundo ainda em guerra, as ruas quase todas de barro, uma ou outra casa em cada rua, uma ou outra luzinha tremulando e o restante escuro feito breu.
Todos dormindo? Só nas ruas o saci, e a mula sem cabeça, e o cavalo Guarani que as crianças juravam ter trancinhas feitas pelo saci que rodopiava por aquelas ruas para assim que escurecia sair montado nele, em pelo.
Não, eu minto.
O Missinfi ficava acordado, no jardim, no murinho, e só entrava quando papai apontava na esquina, sorridente, avisando, "o papai chegou Missinfi!".
Este, que era o gato de estimação do pai, enroscava-se em suas pernas e entravam de mansinho… Só à noite, só com o papai, que gato, naqueles tempos, ficava fora de casa, dormia fora, no quintal ou no jardim, dividindo espaço com o cachorro, o papagaio, e as galinhas. No máximo tinha um saco vazio para deitar, embaixo do tanque, naquele cobertinho, a lata de marmelada vazia onde colocavam o que sobrava do almoço e do jantar e a lata com a água. O Missinfi tinha também uma latinha com areia onde fazia as necessidades.
Caso não passasse das onze horas da noite os dois jantavam juntos.
O prato em banho maria era retirado do fogão, e a cada garfada naquela comida requentada, Missinfi já sabia – "era só esperar seu bocadinho ser colocado ao lado do prato. E a patinha branca e fofa devagarzinho agarrava o bocado e comia."
Certo dia, quebrando todas as regras entrou na cozinha durante o dia e a panela de pressão, que era novidade naqueles tempos, não sabemos porque cargas d’água explodiu. O Missinfi foi encontrado esticado, duro, de barriga para cima. Desmaiara de susto! Minha mãe achou muito bem feito…
E assim fomos crescendo, os tios foram se casando e quando a vovó morreu a casa foi vendida. O bairro florescera, as ruas foram calçadas, e o Missinfi foi levado para a nova casa, três ruas abaixo daquela, todo pomposo, no banco do fusquinha do papai.
Dia seguinte, "cade o Missinfi?"
Foi um susto geral até aparecer o japonês que comprara a casa da vovó trazendo o Missinfi no colo. E assim, sucessivamente, dia após dia, lá vinha o Missinfi no colo do japonês. Isto até que um dia, cansados os dois, meu pai e o japonês, decidiram deixar o gato naquela casa. E o danado que voltasse se sentisse saudades, mas este nunca mais voltara. Na certa não sentira saudades do papai…
Todas as noites, altas horas, meu pai passava por aquela rua só para buzinar para o gato que, solenemente, o ignorava. Ficava lá, naquele muro, plácido e sereno, majestoso…
Hoje, tantos anos depois, hoje quando todos eles dormem: – meu pai, minha mãe, meus dois irmãos, o mais velho e o mais novo, minha avó, meus tios, eu me pego sentindo saudades, e passo naquela rua, só para olhar a casa, o muro. Para matar as saudades.
Confesso, muitas vezes pensei em parar e perguntar pelo gato do papai, pelo "Missinfi", mas acabo desistindo, acho inútil, sete anos de um animal equivalem a um ano das pessoas…
Na certa "Missinfi" também deve estar dormindo o mesmo sono deles.
Dormir para sonhar? Ou dormir para morrer?
Dormir para morrer? Mas morrer é acordar!
Então acelero meu carro, respiro fundo, e saúdo a todos os meus que hoje dormem.
– Bom-dia, meus amores! Eu volto e voltarei sempre que sentir saudades…
e-mail do autor: [email protected]