Empório do seu Orlando

Ficava ali, na esquina da Avenida Lacerda Franco com a Albuquerque Maranhão, o empório do seu Orlando. Nos anos 60 era o lugar onde comprávamos o básico para o dia a dia. Era o empório em que a família atendia bem a freguesia e morava nos fundos, com uma janelinha de vidro que dava para a rua. No apuro, algumas vezes alguns vizinhos batiam na janelinha e alguém da casa vinha atender: era um quilo de açúcar que faltava, ou café, quem sabe, um pote de margarina… Meio escuro, com os balcões de madeira já gasta pelo tempo. Ali se atendia, vendendo-se mussarela, presunto, mortadela a granel, fatiada na hora com aquele cortador com as bordas vermelhas. Invariavelmente pela manhã eu ia até lá comprar o nosso pão e leite: dois litros de leite e cinco pãezinhos. O leite ainda vinha em litro mesmo e a gente comprava o Paulista. Ainda hoje tenho um litro guardado aqui em casa, em cima de uma radiola dos anos 50, que pertenceu ao meu tio Carlos. Na garrafa vinha escrito: "direto da fazenda para sua casa." E do outro lado, "Não precisa ferver" e estampada uma menininha de franja e com maria-chiquinha, com um copo na mão, feliz, tomando o líquido branco… e a cara da vaca do outro lado.

Uma vez o meu marido encontrou um litro desses numa escavação que fazia na casa dos meus sogros. A reforma da casa estava em andamento… e aconteceu a grande descoberta. Orgulhosamente ele me contava o caso. Já adulta levei uma bronca por causa desse litro. Recém-casada, sem dinheiro para nada, fomos almoçar num domingo na casa dos meus pais, no Cambuci. O meu pai sabia que estávamos numa pindaíba danada e, quando nos despedíamos, ele colocou a mão no bolso e meu deu cinco cruzeiros. Íamos de ônibus para a nossa casinha, na Vila Sônia: duas conduções. Fizemos a troca de ônibus na Avenida Paulista e ali estava acontecendo a feirinha de antiguidades do MASP. Comprei o litro de leite, com o dinheiro que o meu pai havia me dado. Quando, orgulhosamente, contei para a mãe a minha façanha, ouvi horrores…

Voltemos ao empório do seu Orlando: ali tinha de tudo: bolacha Maria, pão Pullman, óleo de soja, sabão em pedra UFE, macarrão Galo e de marcas mais populares, detergente… Mas tinha também gibi. Gibis eram aqueles docinhos Confiança, docinhos de leite, amendoim, pé de moleque, paçoquinha Amor, bananada fincada no palito, doce de abóbora de coração. Tinha também drops Dulcora.

Eu adorava poder ir até lá para comprar um gibi, mas não era todos os dias. Normalmente eu comprava lá pelas três e meia da tarde, quando eu terminava os meus deveres da escola e a minha avó fazia o café e ouvia na rádio o programa da Hebe Camargo. Às vezes o Agnaldo Timóteo cantava, mas a vó gostava mesmo era de ouvir o Agnaldo Rayol. E eu voltava com a minha paçoquinha para o quarto, abria o embrulhinho delicadamente para não se quebrar, e continuava estudando até ver se eu aprendia alguma coisa, porque em matéria de lentidão de raciocínio eu levava a taça. Aliás, eu ficava pensando, filosofando, fazendo planejamento para a vida futura. Pensava em um dia morar em Santa Catarina…

Teve uma época que a Pepsi fez uma promoção. Na parte interna da tampinha vinha o direito de se buscar outra garrafa igual. Aí me deu vontade de sempre comprar o refrigerante. Até que não tinha mais nenhuma Pepsi na vendinha do seu Orlando. De repente, da janela da sala eu vi o caminhão passar e fui rapidinho trocar a minha tampinha… e acabei sendo contemplada com outra garrafa. Isso, para mim, era felicidade, a simplicidade tão típica dos anos 60, tendo como referência uma vendinha humilde na esquina de casa.

E se contentar com um doce de abóbora de coração era bom. Tempos anteriores aos shoppings eram tempos de mais liberdade e a vida era sentida mais naturalmente, de forma mais realista, sem preocupações com grifes. Grife coisa nenhuma. A roupa quem fazia era a vó ou a costureira japonesa. Tênis era o Conga e pronto.

A beleza de tudo se concentrava no cotidiano, nas pequenas vitórias, nas descobertas que se projetavam em sonhos, e como era bom sonhar!

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