Manhãs de domingo (Luzinhas)

Sim, era um time de várzea, tradicional, de Vila Mariana. Mas atribuído (referido) ao Paraíso. Pois o campo do "Olimpicus do Paraíso" – muitos hão de recordar – ficava embutido na Coronel Oscar Porto. Uma das traves, de costas para o barranco da Tomás Carvalhal; a outra, para a Estela. O lado oposto ao da Oscar Porto era como que um "paredão", delimitado pelo fundo de casas e pelo Colégio Bandeirante – cuja frente é na Estela, rua em que, à época, ficava também o Ateneu Brasil – lá no começo.

E quem passasse pela Oscar Porto, num domingo de manhã, à hora de um disputado jogo de futebol, estaria muito bem sujeito a uma bolada. Pois o campo de terra era rente à calçada. Do outro lado da rua, um matagal. Que ia de encontro à enorme chácara, a qual se estendia até a Tutóia: hortaliças, flores, pinheiros…

Lembro-me bem – nessas manhãs de domingo – dos caminhões que traziam jogadores e torcedores – adversários: na carroceria. Caminhões que estacionavam em geral na Tomás. Então rua tranquila, de paralelepípedos (como as outras referidas). Casas bonitas, amplas, com jardins e quintais. Pela Tomás passava a linha Cidade Vargas, da CMTC. Eram ônibus ACLO, que ganhavam a Tutóia, depois a estreita Ascendino Reis, a seguir uma Indianópolis "cheia" de vazios, ainda! Onde a D. F. Vasconcelos, com a calota ou abóbada de observatório: quem não teve uma Kapsa? De minha casa – quase a um quilômetro da Tomás – à noite, eu via as luzinhas do ônibus. Que corria pela Tomás, entre casas e quintais. Pois prédios altos quase não havia (exceto o da Estamparia Caravelas, na José Antônio Coelho). Eu até ouvia os ACLO freando, na Tutóia – um barulho característico daquele ônibus. Linha essa que saía do "Largo do Guanabara", ainda assim referido.

Salvo engano, o fardamento do "Olimpicus" era bonito. E sugestivo. Listas pretas, verticais, sobre fundo branco. Gola vermelha. Era o próprio uniforme da F.P.F. (seleção paulista). Dos campeonatos brasileiros de seleções estaduais. Um dramático São Paulo 2 x 1 Paraná, uma vez. Pacaembu? Curitiba? Não lembro.

Meu pai – eu com 6, 7 anos – me levava aos jogos do "Olimpicus", porém – por incrível que possa parecer – não me recordo nem de nomes de jogadores nem de times adversários. Exceto (provável) um "Corinthians do Bosque da Saúde". Ou então "Santos", quem sabe. Brigas – comuns em jogos de várzea? Se houve, nunca vi uma. Talvez eu tenha estado numa fase em que vigorava um tratado de paz…

Daquele barranco – anos 50 – devido à ausência de prédios altos – dava para enxergar longe. Em quase 180 graus. Ibirapuera, Jardim Paulista; mais atrás, Morumbi (creio que até o atual Palácio dos Bandeirantes). Moema – a igreja e a fábrica de brindes "Pombo" (pombo branco num fundo vermelho, lembram?). Indianópolis, a cabeceira do "xadrez" de Congonhas. Até mesmo o topo de hangares. Os aviões – rodas baixadas – passavam bem ao lado do campo do "Olimpicus" – por sobre aquela chácara – contornavam o obelisco de 32, transpunham Indianópolis e desciam – pelo "xadrez".

Certa ocasião – eu, de olho mais nos aviões que no jogo – vi um troço curioso. Pois prontinho para aterrissar, um Convair. Creio que até da Cruzeiro. Driblou o obelisco, passou por Moema e pousou, pelo "xadrez". Mal tocou o chão – arremeteu! Que terá acontecido? Fez a volta, tudo de novo: desceu, enfim! Pois não arremeteu mais! Que sustão, hein, o pessoal lá dentro!

Fica assim: onde – 50 anos passados – o campo do "Olimpicus", hoje é a 23 de Maio (já há algum tempo, é verdade). Avenida que, naquele trecho, mutilou a Oscar Porto. Dividindo esta em dois pedaços: um antes, outro depois! Automóveis: um enxame deles! No lugar dos 22 jogadores, aquela torrente de carros. A disputa, atual, não é por gols: é a neurótica e agressiva luta por correr mais! Onde antes agrião, alface, dálias, palmas, cravos e roseiras – além de pinheiros – asfalto. Uma via expressa. Sinal paulistano, dos tempos, é claro. Jogo vencido pelo "progresso"… Nem empate foi admitido. Perdeu o bucolismo do verde. Do "Olimpicus" do Paraíso? Dele, as manhãs de domingo (ainda) têm saudade… Eu também.

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