Chegamos em São Paulo em 1944, vindos de Bauru.
Verdadeiramente nada foi planejado para essa mudança. Meu pai era telegrafista da antiga Rádio Patrulha e, por motivos talvez políticos, pelo fato de ter lutado por São Paulo na Revolução de 1932, vivia sendo transferido de cidade para cidade.
Naquela época estávamos em Bauru e eu adoeci com um problema renal, sendo encaminhado para a Santa Casa da capital, onde fui curado. Mas isso não tem nada a ver com o assunto. O importante é que viemos para a capital em 1944 e, como bons caipiras, fomos morar perto da estação de trens da Sorocabana, no Largo Coração de Jesus, então um lugar estritamente residencial, assim como todo o bairro de Campos Elísios.
Depois para a Vila Carrão, um fim de mundo onde Judas perdeu as unhas, já que as botas e as meias já tinham ido para o beleléu.
Em seguida fomos para a Liberdade e depois para o Bexiga das melhores lembranças de minha infância. Morávamos no cortiço do "seo" Beppino, num quarto, cozinha (1x1m), dois banheiros coletivos e quatro tanques para a lavagem de roupas e taréns de cozinha. Ali moravam dezessete famílias, mas a vida era boa e o ambiente agradável, nada do sentido pejorativo que a palavra "cortiço" tem hoje em dia.
Depois do Bexiga fomos para a Vila Clementino, para a Rua Leandro Dupré, 655, já melhores de vida e de situação financeira principalmente, o que deu a possibilidade de meu pai alugar uma casa verdadeira, com um quarto só para mim, com chuveiro elétrico (imaginem!) e pondo fim aos terríveis banhos de bacia do tempo do Bexiga. Era uma maravilha, a casa tinha quintal com marmeleiros, abacateiros, parreira de uvas, caquizeiros (que "pegavam" na boca!), pude ter amigos da minha idade, joguei futebol, "taco" na Rua Loefgren… A vida era boa…
Em 1954 meu pai foi sorteado com uma casa no bairro da Previdência, entre Pinheiros e Caxingui. Mudamos em abril de 1954 e ainda moro na mesma casa, agora com minha esposa, filhos e netos.
Este texto é uma homenagem a meu pai, Alcides de Souza Leme, um trabalhador brasileiro, e a minha mãe, Maria José de Souza Leme, a D. Zezé, que, graças a Deus, ainda está comigo aos 89 anos. Saudade de tudo, de todos e mais de meu pai.
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