Nos tempos dos Beatles, do Ié-ié-ié, das calças Topeka, das camisas Volta ao Mundo, do anel Brucutu, do Perfume Lancaster, estudei no Instituto de Educação Anhanguera. Fazia parte de um grupo de adolescentes que cursou o ginásio e científico na mesma classe. Foram sete anos de estudo vividos no dia-a-dia, lado a lado, o que resultou numa turma coesa, unida, que até hoje promove reuniões anuais.
Dele faz parte: Celso Montemagni, Marcelo Gontijo, Takejiro Ueta, Nelson Laranjeira, Roberto Yunes, Paulo Sauma, Alexandre Nicastro, Edson Boca, Enio Salgado Turri, Tarcíso F. V. Cotrim e outros que no momento fica impossível de lembrar.
Já estávamos no científico quando ocorreu o fato que começo a narrar.
O Celso Montemagni morava na minha rua, um quarteirão acima do que eu morava. Por estar no caminho da escola, sempre passava na casa dele para que fossemos juntos, o que definiu uma grande amizade entre nós. Na época ele se tornou um dos meus melhores, senão o melhor amigo que tive.
Além do curso ginasial, resolvi cursar também a Escola de Teatro do Alberto D'Aversa (que nada tinha a ver com o curso regular da escola). Estas aulas eram também noturnas, e compreendiam o período do final de tarde, sendo que algumas iam até à noite, quando alguns atores e professores de arte dramática eram convidados a palestrar para o grupo de alunos.
Nem é preciso dizer que meus pais não sabiam da minha "aventura teatral" (minha mãe, especialmente, não queria atores na família).
Numa dessas noites, tive que "matar" a aula do Anhanguera. Por compromissos particulares, no dia seguinte, não pude me encontrar com o Celso e fui diretamente para a escola.
Ao chegar, tive uma desagradável surpresa: o professor de química resolveu fazer uma prova pré-fixada na noite anterior (quando eu havia faltado). A prova era difícil e ele havia recomendado que cada aluno levasse o livro para livre consulta de fórmulas.
Eu, extremamente desavisado, de nada sabia e não levei o tal livro. Combinei com o Celso para que, por sentarmos perto, sorrateiramente me emprestasse o livro durante a prova.
O tal professor, sabendo de nossa amizade, resolveu colocar ambos no fundo da sala e bem distanciados, o que me impediu de pedir ao amigo o tal livro.
Durante a prova tentei por várias vezes e desesperadamente pedir o compêndio ao Celso. Mas era impossível.
Resultado: fui muito mal na prova.
Nessa noite voltei com o Celso a caminho da Rua Albion. Durante o trajeto, pelo nervoso do acontecido, descarreguei minha ira no amigo. Praguejei, xinguei, caluniei, disse os maiores impropérios para ele. Afirmei que não precisava de um amigo assim, pois se realmente fosse meu amigo, deveria ter dado um jeito de me avisar para que levasse o livro. Enfim, cheguei a ponto de romper a amizade.
O Celso se manteve impávido, não disse uma palavra.
Nem nos despedimos com o tradicional "boa noite".
Fui para casa.
Como dizia minha mãe, "a noite é a melhor conselheira".
Ao encostar a cabeça no travesseiro, comecei a refletir sobre o fato. Não consegui dormir. Baixou um tremendo complexo de culpa, caí em mim e num acesso de consciência concluí que a culpa era minha. Que perdera um grande amigo por um simples acesso de raiva.
O dia veio e a cada minuto que passava mais eu me sentia mais culpado.
Na hora de ir para a escola, passei pela casa do Celso (como sempre) e ambos nos dirigimos à escola. No caminho, desenrolei os maiores pedidos de desculpas.
Ao terminar o amigo respondeu: "Você não tem que se desculpar. O que aconteceu, aconteceu. Ontem você estava nervoso e desabafou comigo. Quem sabe amanhã eu vá ficar nervoso e desabafe com você? Afinal é para isso que servem os amigos? É para isso: para compreender um ao outro. Está tudo bem!"
Nunca mais o fato foi citado.
Nesse dia tive uma grande lição de vida e de amizade.
Hoje, todos esses colegas que citei acima são grandes profissionais. O tempo passou, mas a lição permaneceu.
Obrigado, Celso, por me ensinar o verdadeiro significado da palavra amizade. Embora nos vejamos raramente (coisas da vida), você foi uma das pessoas que mais marcaram minha vida,
Afinal, amigo é pra essas coisas.
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