Entre cães e homens

Foi em uma das noites frias do mês de junho.

Quanto ao ano, acredito que tenha sido entre 1959 e 1961.

Estávamos todos da comunidade do Falcão do Morro, na Vila Corberi, em Itaquera, no velório de um parente de meu amigo Giba na casa de sua avó, dona Manuela, uma negra de mais ou menos uns 120 quilos beirando na época os seus 70 anos, e dela guardo como viva em minha lembrança a imagem de seu enorme sorriso abaixo dos olhos esbugalhados e brilhantes.

Era tradição na comunidade passarmos a noite com os familiares do defunto para fazer companhia e também para aproveitar a boca livre de salgadinhos, doces, chá e, para os homens adultos, a insubstituível cachaça.

A madrugada estava fria e os homens resolveram acender uma fogueira no fundo do quintal, onde poderiam contar suas piadas e rir à vontade sem causarem transtornos aos parentes mais próximos do falecido.

Eu, ainda garoto, e meu amigo inseparável, o Giba, estávamos ao lado da fogueira junto aos homens para saborear a graça das piadas e dos causos ali contados, principalmente pelo Juca da dona Olâmpia, que era figura carimbada em todos os velórios, pois velório sem o Juca não era velório de respeito.

Ouvimos a cachorrada dar um pega danado bem lá no fundo do quintal na divisa com a chácara do seu João das Vacas, foi um pega de bicho estranho que chamou a atenção de todos. Chico Torto, tio do Giba, tomou a iniciativa de lá ir ver o que se passava. Pegou um cacete de lenha e ao chegar perto de uma moita de arbustos foi surpreendido por um enorme cachorro estranho à vizinhança. O cão assustado com os demais cachorros e com o próprio Chico saiu em disparada, passando por entre nós próximos à fogueira, varou a cerca de arame farpado, atravessou a antiga linha do trem da Central do Brasil e foi em direção de um matagal onde hoje fica a Cidade A. E. Carvalho.

Os homens reuniram um grupo de busca armado de cacetes e pedras e foram à procura do cão que diziam estar louco e por este motivo deveria ser sacrificado. Nós crianças fomos orientados a ficar dentro de casa e não no quintal, tendo em vista que o animal poderia retornar.

Já deveria ser perto das três horas da manhã quando ouvimos no silêncio da madrugada o vozerio dos homens que retornavam da caçada.

Chico Torto entrou na casa juntamente com o Juca e contaram que encurralaram o bicho em uma gruta de pedra de uma velha pedreira entre Itaquera e Artur Alvin, e quando fecharam o cerco foram surpreendidos por um vulto de homem que pedia pelo amor de Deus para são ser agredido. Era o Valdevino (nome fantasia para preservar a imagem da família), um homem da comunidade conhecido por todos, porém um tanto quanto esquisito quanto ao comportamento, pois era comum encontrá-lo falando sozinho pelas ruas, embora fosse um dos poucos letrados lá do morro. Valdevino estava nu e com vários arranhões pelo corpo e não sabia explicar como tinha ido parar naquele lugar.

O segredo não pode ser guardado e logo o fato tornou-se de domínio público e Valdevino passou a ser conhecido a partir daquela data como sendo o Lobisomem da Vila Corberi.

Valdevino não suportou por muito tempo e alguns anos depois do ocorrido suicidou-se.

Valdevino teve dois filhos, um menino e uma menina, ambos mais novos que eu. Pude acompanhar o crescimento das crianças enquanto morei em Itaquera e a última lembrança que tenho é deles com aproximadamente 12 anos o menino e 10 a menina. Soube pelo Giba que o garoto também se suicidou antes de completar 30 anos, pois não conseguiu suportar a saga que herdou do pai.

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