Rodando na vitrola

Naquele dia quente, no distante verão de 1962, caminhava distraidamente pelo largo da Concórdia em direção ao cortiço onde morava com meus pais. Preferia fazer a pé o caminho do centro até nossa casa, pois economizava uns caraminguás para comprar discos ou ir ao cinema.

E os discos sempre foram minha paixão!

Na verdade, os bolachões de 78 RPM eram outros moradores lá do nosso pedaço, afinal, não se vivia somente entre ratos e baratas, mas também nos dávamos ao luxo de escutar músicas.

Meu pai adorava os baiões de Luiz Gonzaga, as gravações da Orquestra Cassino de Sevilha, da Orquestra de Percy Faith, de Mantovani, dentre outros renomados maestros que eram moda na época.

Eu já preferia o rock, lógico!

Lembro-me que naquele 1962 os discos que mais tocavam na minha vitrola portátil, presente do Natal de 1961, eram Breaking Up is Hard To Do, a inesquecível gravação do genial Neil Sedaka (que, depois de 1959, voltaria a São Paulo naquele ano para mais uma apresentação de sucesso), além de A Steel Guitar and a Glass of Wine, com Paul Anka e a orquestra de Ray Ellis. Ambos lançamentos do selo RCA Victor ("As Maiores Vozes Gravam Pelo Selo RCA Victor"). Ouvi-as pela primeira vez no programa saudoso de Enzo de Almeida Passos, o Telefone Pedindo Bis. E eu também telefonei pedindo bis, pelo telefone do bar do "seo" Giulio. Foram canções de sucesso nas rádios à época.

Ainda hoje eu tenho os tais compactos e quando posso coloco eles para rodar, como rodavam na vitrolinha em 1962.

Sedaka e Anka estão na ativa ainda, fazendo shows e aparições na TV norte-americana. Ambos legaram ao rock as mais belas e sentimentais gravações de uma época maravilhosa! Ainda fazem minha cabeça.

Quando ouço os primeiros acordes de Breaking Up Is Hard To Do, um legítimo Hully Gully, volto no tempo e me lembro daquele rapaz que adorava dançar e andar a pé do centro ao Brás para economizar uns trocados, que me dariam o prazer de ouvir a boa música.

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