Na fila do pão

Todo supermercado de agora tem sua padaria. Muitos ainda não criaram o self-service dos pãezinhos, então forma-se uma pequena fila para pedir ao atendente, que pesa e cola no pacote o preço a ser cobrado. Alguns já oferecem pegador de inox, ou luvas e sacos virgens para acondicionarmos os pães e pesar no caixa, como os legumes e frutas.

Aconteceu esta semana, no bairro Freguesia do Ó. Uma pequena fila de aproximadamente seis pessoas que esperavam pacientemente sua vez. O atendido era um senhor de terno cinza-claro, um tanto quanto surrado, sem tirar-lhe, porém, a elegância que certamente vinha também de sua atitude séria e íntegra. Enquanto a moça do pão preparava seu pedido aproximou-se do balcão seguinte para pedir frios a outra atendente. Eis que notamos que a moça do pão cortava um por um os 10 pãezinhos que o senhor solicitara. De costas para os outros clientes, ela cumpria sua missão com calma e determinação, sem abalar-se, quando uma senhora resolveu se revoltar com a demora:

– Só você está atendendo? – perguntou sua voz irritada e óbvia.

A mulher seguiu cortando os pães, sem se voltar para a reclamante. O senhor se postava entre os dois balcões, um tanto quanto aflito, mas também sem se manifestar. A mulher foi se alterando mais e em voz alta, disse que iria reclamar, o que imediatamente decidiu fazer abandonando a fila. Melhor para quem aguardava. Um rapaz à minha frente questionou comigo:

– Será que ele não tem faca em casa? Dez pães cortados? Onde já se viu?

Fiquei curiosa imaginando o porquê de uma compra assim inusitada. Argumentei que talvez o velho senhor não pudesse cortar, por dificuldades manuais, e defendi a funcionária que precisava atender ao cliente. Vi quando o gerente se aproximou do balcão, já sem fila, e nenhum motivo para a reclamação da mulher que chamou de louca.
Voltei para a casa de minha mãe ainda me perguntando a razão dos pães cortados. Só depois atinei para o fato da quantidade de mortadela fatiada que aquele senhor comprara.

Estava explicada boa parte do mistério. Meu coração enternecido pelo homem imaginou que estivesse praticando uma boa ação. Viu um grupo de moradores de rua e quis oferecer-lhes sanduíches? Pedreiros de uma obra?

Fica aí esse pequeno dilema e uma cena da grande impaciência do mundo moderno. Há o direito de bom atendimento e da reclamação, pois muitos estabelecimentos não respeitam os consumidores, mas exagero de causa e certa prepotência que a mulher do pão soube driblar com sua indiferença.

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