Quarta-Feira, 12 de julho de 2006. Uma manhã que prometia ser quente e ensolarada, bem atípica para o inverno que os paulistas estiveram acostumados em algumas décadas passadas. Joana acordou cedo, tomou uma condução e partiu do litoral em direção ao planalto rumo à cidade de São Paulo. Desceu no terminal da estação Jabaquara do metrô e de lá seguiu conduzida por uma composição de ferrovia, que trafegava por baixo da terra se esquivando do caos dos congestionamentos diários daquela metrópole.
Desceu na plataforma da estação São Bento, subiu as escadas rolantes, e notou que o movimento de pessoas era intenso. Ao deixar as dependências da estação e avistar uma ladeira de nome "Porto Geral", sentiu-se um "peixe fora d'água". Joana não imaginava que pisara seus pés em terras que dantes foram usadas por um porto que servia de escoradouro para as mercadorias importadas que entravam em São Paulo, tendo sua origem de chegada o Porto de Santos. Afinal, era apenas oito horas da manhã, e o movimento de pessoas que se fazia naquele lugar mais se parecia com portões de estádios para jogos esportivos em final de campeonato.
Desceu a íngreme ladeira por menos de cem metros até cruzar com a rua que lhe parecera por um instante, "rua de um conto de fadas". Joana estava pela primeira vez, diante do caminho que, por mais de um século, transformara homens estrangeiros em cidadãos brasileiros. Homens de coragem unidos às famílias que lá se estabeleceram, em um tempo que outrora se habitava em cima e se trabalhava embaixo, transformando seus sobrados em sustento e conforto. De lá esses soldados, unidos em uma tropa, pactuaram os seus sonhos em prol da mesma bandeira. Deixando de lado as divergências de etnia, ocuparam o mesmo solo gentil do Brasil. Homens e seus descendentes, árabes e judeus, portugueses e italianos e outras etnias, formaram os seus filhos na política e na justiça, no comércio e na indústria e também na economia, ocupando posições de destaque na sociedade, sendo muitos até doutores consagrados no país.
Lá estava Joana, rompendo suas barreiras, libertando-se dos medos que encarcera os escravos do comodismo. Ela que acordara cedo, saindo de sua cidade em busca de novos mares. Sabia dos riscos que a sua falta ao trabalho poderia lhe causar, tanto em novos aborrecimentos como em parte do salário que não haveria de recuperar, neste caso perderia o dia e também o feriado em seu soldo mensal. Ela que sempre lutou arduamente em busca de seus objetivos lá estava, ante a rua carinhosamente apelidada simples e objetivamente de "XXV", que outrora recebera o nome de Rua da Várzea do Glicério. Várzea, sim: terreno baixo para os humildes, plano para os iguais, fértil para os intrépidos. Rua que ainda recebera outro nome no decorrer de sua história: Rua das Sete Voltas. Não é a toa que as pessoas se perdem em meio a tantos becos, entradas e saídas, indas e vindas à procura de suas prendas. Não raro, elas vêm vão e retornam, fazendo pulsar sob seus pés as correntes do rio que ninguém vê, mas está lá fazendo seus sonhos fluírem à mente no curso do leito do Rio Tamanduateí.
Esta era, e ainda é, a "XXV" de todos, a mesma que suplantou os maus tratos ante inúmeras enchentes e conflitos, ora gerados pelas greves dos desfavorecidos, outrora pela desinteligência de patentes ou entre ambas as partes: mocinhos de um lado fazendo vingar a lei, e piratas e contraventores do outro, praticando a burla, tendo como objeto de todas as desavenças as mercadorias contrabandeadas e pirateadas, as mesmas e tão desejadas por tantos, que por lá desembocam vindos de diversos lugares. Um lugar vibrante que outrora fora palco para um rio de grande valia. Pessoas intrépidas provenientes de diversas cidades, outros Estados e até de países vizinhos e distantes do Brasil. Estes personagens, em cujas veias também pulsam as correntes d'águas que sempre alimentaram este rio, para lá são atraídos como sendo seus afluentes com o único e forte objetivo: viver na alma os segredos e sabores do comércio da Rua XXV.
Todo o conteúdo deste texto é parte integrante do romance Vitória na XXV, de Hermes Machado, publicado em 2007. O autor procura editoras interessadas na edição deste trabalho literário.
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