O Benê era um amigo especial. Levava sua vida na tranquilidade sem se preocupar com os estudos ou ocupação regular, patrão, horário, tanto que, até o final de sua vida, na década de noventa, nunca teve uma profissão ou emprego fixo, entretanto saiu-se muito bem como "lobista", atividade esta que se encaixava perfeitamente a sua personalidade, e lhe deu "status" e patrimônio. Gostava de dançar e das conquistas amorosas, no que, aliás, era extremamente hábil. Nossa amizade vinha da infância, nos anos 50, quando morávamos na Rua Marapoama, de onde nossas famílias mudaram-se para o Alto da Lapa.
Quando chegava o período das férias escolares Benê era minha companhia constante, e, durante a semana, íamos para o centro da cidade aos cinemas, salões de bilhares do Martinelli ou o Maravilhoso, da Avenida Ipiranga, e, principalmente, em busca das paqueras, no que eu me saía muito bem com o Benê, pois o meu excesso de cautela em me aproximar das garotas era compensado pela sua impetuosidade.
Numa dessas noites, após o cinema e nenhuma conquista, caminhávamos pela Avenida São João quando Benê sugeriu uma passada pela TV Paulista, que apresentava um programa musical nos finais de noite, sempre com artistas consagrados. A TV Paulista, conhecida emissora da Organização Victor Costa, tinha sua sede instalada na Rua Sebastião Pereira, onde hoje é o jardim da estação Santa Cecília do metrô, tendo sido comprada em 1965 pela Globo dando origem à gigantesca rede dos dias atuais.
Aproximadamente onze horas da noite entramos no deserto auditório, onde, além de nós, havia mais meia dúzia de notívagos assistindo à apresentação de uma cantora, mulata delgada, voz incisiva e que era acompanhada pela orquestra do maestro Pocho, muito famosa naquela época.
De início não identificamos a cantora, mas sua voz diferenciada penetrava nossos tímpanos e atingia nossas almas. Estávamos sentados na primeira fileira de cadeiras, e ela, como se estivesse agradecendo aos aplausos de dois jovens bem vestidos, no auge de seus vinte anos, e interessados na boa música brasileira, dirigia seu olhar e sorriso para nós, que retribuíamos com mais, e, calorosos aplausos.
Até a terceira canção ainda não havíamos identificado a simpática mulata, muito embora sua voz maviosa soasse familiarmente aos nossos ouvidos. Entretanto, quando ela iniciou "Nossos Momentos", em magistral interpretação, nossa ficha caiu, como vulgarmente se fala; quem se apresentava, quase que com exclusividade para nós, era simplesmente ELIZETE CARDOSO, "A DIVINA".
Sorte a minha de ter como amigo o saudoso Benê, as transmissões de televisão serem ao vivo naquela época, e, por que não dizer, ter vivido minha juventude no momento certo (anos 50/60) e, principalmente, no lugar exato, nossa querida cidade de São Paulo.
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