Arraiá do Consolato

Eram muito divertidas as festas juninas lá em casa. A gente festejava a noite de São Pedro.

Meu nono tinha um filho nascido no dia de São Pedro, e minha mãe exagerou colocando meu nome Pedro Antonio. Eu vivia brincando com ela que tinha faltado o João no meu nome.

O nono chamava Consolato, consulado em italiano, em homenagem ao avô materno Consolato de Maio, nascido em 1814.

As festas sempre foram muito organizadas, com fogueira, quadrilha, quentão e comidinhas típicas.

Não podia faltar balão, rojão, bomba, busca pé e vulcão de prata. Muitos vinham fantasiados.

Eles gostavam tanto dessa festa que nos fundos do quintal tinha uma oficina para os festejos e ela tinha sido construída assim: tinha seis por três metros e estava encostada no muro do posto. Ao entrar pela porta lateral, a gente encontrava na parede direita à bancada de carpinteiro e do lado esquerdo um grande balcão em toda a extensão dos seis metros. Do lado uma pia.

Em cima do balcão, duas grandes janelas basculantes de três metros cada, que, ao serem abertas para cima, eram fixadas com quatro barras de ferro, com furos na ponta, para encaixar o parafuso lateral da coluna. Assim, as janelas viravam telhados que protegiam as pessoas que fossem se servir no balcão. Ali no meio do quintal a grande fogueira ia ser acesa e tinha que durar a festa toda, não faltando nunca o pessoal que pulava a fogueira.

No mastro a figura de São Pedro, era uma imagem comprada junto com os fogos.

Na vitrola, quando não tinha conjunto caipira, se tocava sempre os mesmos discos, aqueles velhos 78 de baquelite, tocando sempre as mesmas músicas juninas ano após ano. Dentro da oficina tinha um fogão que deixava o quentão quente e onde se estouravam as pipocas.
Ficavam lá também os foguetes e bombinhas que os tios distribuíam para a garotada.

Acho que foi em 1961, a gente estava esperando o nono chegar de São Roque para começar a festa.

Ele tinha ido levar comida para as criações do sítio e estava demorando muito, quando a gente soube que ele tinha batido na Via Raposo Tavares. Eles estavam em três no jipe e, ao ultrapassar, estava chovendo, bateram na carroceria do caminhão que vinha em sentido contrário. Naquele tempo a estrada tinha só uma pista. Só o nono se machucou, quebrou o braço esquerdo, e com o Rafael e com o outro rapaz nada aconteceu. O rapaz foi atirado longe do carro. Lembro do Nono chegando em casa de madrugada, todo enfaixado e se lamentando do acidente, pois o rapaz tinha se esfolado todo.

O nono estava com pena do rapaz, mas era ele que estava estropiado. O Rafael desmaiou na batida.

Foi uma noite de 29 de junho diferente das outras. O Land Rover acabou. Não teve festa.

Não se acendeu a fogueira. Não se soltou rojão.

Percebi que naquela noite a festa não aconteceu, porque São Pedro estava muito ocupado cuidando do Consolato…

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