Pinsados do cotidiano.
Nos quinze anos de Matarazzo, de 1960 a 1975, a melhor empresa que trabalhei, ocorreram fatos curiosos, alegres, tristes, dramáticos e até bizarros. Até o ano de 1965, trabalhei como desenhista de embalagens no setor da "Divisão Química", que compreendia a Celosul, a primeira fábrica de celofane no Brasil; TNT (tecido-não-tecido), o que se usa, até hoje, como coador de café descartável e outras aplicações; tripa artificial alimentícia, pra fabricação de linguiças e outros embutidos; produção do ácido cítrico alimentício, em Sta. Rosa de Viterbo, única na América do Sul; fábrica de papel, no Belenzinho, o melhor sulfite do mundo e mais alguns setores que, agora, infelizmente, não lembro.
Uma poderosa empresa composta dos mais diferentes segmentos industriais, contribuindo de forma decisiva pro desenvolvimento de nossa cidade.
A maior parte desses quinze anos trabalhei no Edifício Matarazzo, na Praça do Patriarca, hoje, Prefeitura Municipal.
O uso de paletó e gravata era obrigatório a todos os funcionários; como desenhistas, usávamos um guarda-pó, branco, sem tirar a gravata. Uma ocasião, muito calor, tirei a gravata, esqueci, fui ao banheiro e no corredor deparo com o segurança.
– "Onde está sua gravata…?"
– "No meu armário", respondi.
– "Volta, vá pôr, se te pego mais uma vez, suspensão…"
Nosso chefe de seção era o pintor Ludovico de Nicollelis, napolitano que, além de suas funções na empresa, era o curador e restaurador das pinturas, esculturas e outros objetos de arte, da condessa, na residência da família, na Avenida Paulista. Pessoa boníssima, pintava muito bem, casado, com um filho, mas nunca caiu nas graças de seu sogro, maestro Autuori, nessa época, já aposentado. Rabugento, o maestro tinha lá seus motivos, nunca soubemos a razão. Especular a respeito não é decente, mas tínhamos suspeitas…
O conde Francisco trabalhava no 6º andar e tinha um elevador exclusivo que ele tomava no térreo do prédio, pelo vale do Anhangabaú, ao lado da Galeria Prestes Maia. Seu carro parava bem na porta de entrada do elevador. Subia direto pro 6º. Os funcionários entravam pela Praça do Patriarca que era o 3º andar. Um dia, coincidiu a chegada do conde, no seu elevador, e a entrada de vários funcionários no elevador a eles destinados. Era uma segunda-feira e o vozerio era próprio do dia, todos falando alto, se cumprimentando, futebol, cinema etc. e tal. No exato momento em que o elevador do conde, subindo, passava pelo 3º, o dos funcionários entrando, falando alto, algazarra normal, o conde, chegando a sua sala, chamou imediatamente o segurança, ordenando que todos os que estavam no elevador "barulhento" fossem suspensos, por dois dias.
O homem era muito esnobe, totalmente diferente de seu filho, dr. Hermelindo, muito chegado a nós, que chegou a jantar conosco, vendedores, numa cantina do Bixiga, na 13 de Maio, depois de um jogo de futebol na Atlética, na Casa Verde. Em seguida, convidou-nos a jantar em sua casa, no Morumbi, tenho fotos da noite, em que conheci sua filha Cláudia Matarazzo, hoje poetisa.
Pra se ter uma ideia de como a empresa era "fechada" e avessa a publicidade e movimentos sociais, uma ocasião estávamos trabalhando, no 7º andar, quando um tremendo estrondo se ouviu, vindo das escadarias. As escadas giram em torno de um vazio e, no fundo, se avista escuridão total. Todos correram pra ver o que tinha acontecido. Um funcionário se atirou nesse vão, por motivos que nunca foram esclarecidos.
No dia seguinte, compro o jornal, não sai nada e em nenhum outro jornal, nem no rádio ou TV. Simplesmente, abafado.
Minha entrada no Matarazzo devo ao saudoso Jacyr Panzarini e ao meu compadre Hiroo Takahashi, o Jorge. Jacyr também patrocinou minha troca pelo departamento comercial, fui ser vendedor, isso em 1965. Era irmão do Clóvis Panzarini, hoje comentarista sobre economia, na Jovem Pan.
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