Ipiranga minha vida

Não sou jornalista e as minhas palavras fluem pela emoção de ter nascido e vivido boa parte da minha vida no bairro do Ipiranga.

Ano de 1936, nasci na Rua Sussuarana, próximo aos fios de transmissão de energia elétrica da Light, dia de carnaval, chovia muito e acredito que, como todo filho de família pobre, tenha vindo ao mundo sem grandes dificuldades.

Filho de imigrantes que para cá vieram sem sequer serem alfabetizados, imaginem as dificuldades encontradas para sobreviver.

Mas era um tempo diferente, as pessoas se uniam e encontravam apoio da pequena comunidade para melhor viver e as dificuldades, às vezes, se transformavam em grandes festas.

A vila chama-se Vila Nair, não tinha luz, asfalto, água e a distância para encontrarmos um meio de transporte que nos levasse ao centro da cidade era feita a pé em 20 ou 30 minutos, dependendo do tempo, se chovia era mais demorado.

Grupo Escolar D. Pedro I – Rua Dona Leopoldina – Diretor em 1947 Sr. Odom Cavalcante Maranhão, era nesta escola que iniciávamos a nossa alfabetização e o então curso primário.

Bonde 4 Ipiranga, ia até o fim do asfalto na Avenida Nazareth, próximo ao Museu do Ipiranga, Bonde Fábrica vinha da Praça João Mendes e fazia ponto final no Sacomã.

Clube Atlético Ipiranga, onde havia um lago que, nos dias de calor, recebia a garotada que fugia de casa para nadar, sem para tanto observar os perigos, os afogamentos e doenças constantes que aquela água "suja" provocava. Neste Clube, na época de Natal, as crianças se organizavam em enormes filas para receber o seu brinquedo, sem sequer pensar que existia "Papai Noel".

Já naquela época, os poderosos ostentavam seus palácios, como os Sammarone, Jafet etc., contrastando com a pobreza muito próxima de seus olhos.

O bairro foi crescendo, cine Samarone, Anchieta, Paroquial, e os circos que faziam pequenas temporadas levando a alegria principalmente para as camadas da população mais pobre.

Alugávamos bicicleta, íamos até onde estavam ancorados os barcos do Clube e os desamarrávamos remando até sermos apanhados pelo Zelador do Clube, que nos repreendia e levava-os de volta.

Já mocinhos, tínhamos os bailinhos familiares, onde sonhávamos com um futuro brilhante, ao lado das menininhas da época, que não sabiam e nada entendiam de amor.

Ia me esquecendo… Tínhamos uma grande vantagem, visitávamos quando bem queríamos o Museu do Ipiranga.

Alguns amigos de infância brilharam no cenário da música e arte: Wilson Miranda, cantor, Erlon Chaves, cantor e maestro, Walter Avancini, ator e diretor, todos já falecidos.

Hoje meu querido bairro se transformou em uma metrópole e os lugares por onde passei e vivi estão quase que irreconhecíveis, assim como eu, que tenho certeza ninguém mais me conhece ou reconhece.

Que bom ter nascido no bairro do Ipiranga e ter uma história para contar, faltando muitos detalhes, já que a memória dos meus 72 anos já não ajuda muito.

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