Minha avó, Dona Ibrantina Ferreira Flores, educada fervorosamente na Igreja Católica, costumava me contar histórias dos personagens a quem ela chamava de "verdadeiros Santos de São Paulo".
Desde que me lembro, ela rezava, de terço na mão, pontualmente às seis horas da tarde, sentada à cabeceira da cama, impossibilitada que estava de ir à Igreja, pois não conseguia caminhar normalmente por ter fraturado os ossos da bacia. Depois desse acidente, ela nunca mais pôde caminhar normalmente, nem mesmo com o uso da bengala, e qualquer trajeto mais longo era motivo de grande sofrimento.
Então, resignada, rezava em seu quarto. E num dia desses, um sábado, ela me chamou para rezar junto com ela; o rosário inteiro, com muita devoção. E ao final, agradeceu a alguns "Santos" que eu nunca tinha ouvido falar.
Muito curioso, perguntei quem eram esses Santos, e ela me contou que eram Santos não reconhecidos ainda pela Igreja Católica, mas que há muito ajudavam a todos que procuravam sua intercessão. O primeiro deles foi Antoninho da Rocha Marmo, que era um menino que faleceu em 1930, aos 12 anos, vitimado por tuberculose. Diziam ser o menino um Santo, e que por sua saúde muito frágil nunca pôde levar uma vida normal junto às outras crianças, mas que isso nunca abateu o pequeno Antoninho. Enterrado no Cemitério da Consolação, Antoninho socorre àqueles que lhe pedem sinceramente ajuda, e por isso centenas de placas de agradecimento por graças alcançadas estão junto ao seu túmulo, que é sempre um dos mais visitados pelos devotos de todas as religiões.
Contou-me também sobre o Antonio Bento, que foi um mendigo que pernoitava junto ao portão do Cemitério de Santo Amaro, e que muitas vezes ajudava aos moradores do local com pequenos serviços e favores, em troca de um bocado de comida. Falecido em 1917, foi enterrado neste mesmo cemitério, e contam que inúmeras graças foram alcançadas por devotos que hoje mantêm seu túmulo sempre arrumado e repleto de flores e velas.
E uma das devoções populares mais fortes de minha avó – e de muitas outras pessoas de todas as religiões – diz respeito às 13 Almas, que segundo contam, foram vítimas do incêndio pavoroso que destruiu o Edifício Joelma em 1974. Enterradas sem terem suas identidades conhecidas, no Cemitério São Pedro, na Vila Alpina, são poderoso auxílio àqueles que as invocam em suas dificuldades, e os túmulos sempre estão decorados com flores, imagens e garrafas d’água, que dizem ter sido o alívio aos lamentos das almas vitimadas no incêndio. Com o tempo, as graças solicitadas às 13 Almas começaram a surgir e a devoção espalhou-se pela cidade.
Pena foi minha avó não ter visto a canonização de nosso Frei Galvão, reconhecido como primeiro Santo Brasileiro pela Igreja Católica. Mas, de onde ela estiver, tenho certeza que estará, de terço na mão, a rezar por todos nós.
Assim era a Dona Ibrantina, devota dos Santos populares de São Paulo, que ajudaram, de uma forma diferente, a escrever a história de religiosidade da Capital, e de seu povo tão sofrido.
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