O dia em que o Paraíso não fez jus ao nome

Anos 70… a chuva desabando em São Paulo, mas esse não era o problema, o jogo era no Pacaembu, Palmeiras X Santos… e eu, como fanático palmeirense… não ia perder esse jogo por nada e, junto comigo, o fiel amigo Chico, corinthiano.

Eu morava na Rua Teixeira da Silva e, meu amigo, na rua de baixo, Otávio Nébias, esquina com a Rafael de Barros. A tempestade não dava tréguas e a solução foi apelar para os nossos pais; peguei emprestado um casacão que ia um pouco abaixo dos meus joelhos, enquanto que o corinthiano deu uma cantada no pai e levou uma capa de chuva, também na altura dos joelhos e uma boina à la francesa.

E lá fomos nós… rumo ao Pacaembu, pegando um ônibus lotado na Paulista, e, como a chuva insistia em continuar a cair, deixamos pra lá o tradicional "churraquinho de gato", sem escalas para a bilheteria, com o bilhete na mão da arquibancada… prontos e ensopados para o jogo.

O jogo? Nada demais… 1 X 1, mas estava apenas começando…

Fim de jogo e lá fomos nós de volta pra casa… mas antes, uma passadinha no Fliperama da Alameda Santos, ao lado do Dinhos Place…

Eram umas oito da noite… a gente se divertindo… o tempo passando… ainda com fichas no bolso… apenas fichas e uns trocados… problemas à vista!!! Já passava das dez da noite… e… game over vai… game over vem… nem notamos a entrada do que parecia um desfile militar… e… eles vindo e revistando todos que viam pela frente… o filme passa rápido em nossas cabeças… anos 70… militares… a chuva… a capa e o casaco… mãos nos bolsos… fichas esperando serem jogadas… eram três… mas não fichas e sim policiais, parados à nossa frente… o sargento ou seja lá qual fosse a sua patente… era japonês… nada diplomático, foi logo pedindo os documentos… e… nada!!!

Por causa da chuva, resolvemos não levar as identidades… não teve conversa… o camburão… aquela velha Veraneio, nos esperava… entramos… e pelas frestas íamos olhando… sem sabermos para onde estavam nos levando… será que num beco… e… de costas para o muro… um palmeirense e um corinthiano a menos nos estádios?

O freio nos acorda daquele pesadelo… e descemos… na Delegacia da Tutóia… talvez estivéssemos melhor no muro… sabe como é? Cada um correndo para um lado… 2 p/1… mas a Tutóia era nosso destino… uma cela 3×4, um bêbado sentado no chão… outro, cabisbaixo, havia comido e bebido do melhor no Dinhos, mas havia "esquecido" o dinheiro.

O bêbado era boa gente, sentamos junto com ele, rabiscamos um jogo da velha no chão… e eu, minuto a minuto, batia na porta, tentando convencer o delegado para entrar em contato com meu pai, porém, sem sucesso.

Após muitos rabiscos no chão e batidas na porta, o delegado atendeu a meus pedidos e, em cinco minutos, meu pai estava lá; o delegado escutou meu pai, entendeu a situação e nos liberou… UUUUUFFFAAAAAAAA!!!

Passados quase quarenta anos… e com Sol ou com chuva… há sempre um lugar reservado para meus documentos.

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