Mundos pequenos, grandes histórias

Se uma civilização a milhões de anos luz da nossa galáxia tentasse localizar o nosso planeta, ela estaria se envolvendo numa empreitada inglória e desanimadora. Seria como tentar achar uma agulha num palheiro, ou, pior que isto, achar um grão de areia no mar. O nosso universo é grande, mas poucas pessoas fazem ideia do quão grande ele é. O nosso universo observável tem mais estrelas do que grãos de areia na terra e esta, por mais insignificante que seja, comparada à imensidão do cosmos, tem história, muita história. E para nós, terráqueos, a única história que existe é a nossa, pois, até este exato momento, não sabemos como encontrar vida semelhante à nossa fora do nosso pequeno mundo. No entanto, aqui neste terceiro globo a partir do sol, para se ter uma boa história não é preciso ser grande. Para se encontrar uma grande história não é preciso ir tão longe e nem viajar tão distante no tempo. Basta olhar ao redor de nossas vivências e lembrar das pessoas que conhecemos em carne e osso.

Olhando para um passado recente, há apenas quarenta anos atrás, eu encontro, num espaço menor que cem metros, contidos na metade superior da Rua Corneteiro Jesus e sua confluência com a Rua Marechal Fontoura, no bairro da Água Fria, onde passei parte de minha infância, toda minha adolescência e juventude, matéria prima suficiente para escrever uma verdadeira enciclopédia.

Cem metros são bem menos que um mundo em miniatura, mas nestes mundos minúsculos existem tesouros que ficarão enterrados para sempre se não nos importarmos com a vida de seus habitantes aparentemente simples, mas tão complexos e tão ricos em experiências quanto um Júlio Cesar ou um Alexandre, o Grande. Não podemos deixar que as existências destes seres humanos preciosos passem completamente despercebidas, como nomes que nunca existiram para a posteridade, como criaturas sem sentido, como a terra antes do surgimento da capacidade reflexiva do homem, e que não fazia sentido para os seres irracionais que a habitavam, e nem para este universo de tamanho incalculável que a abriga como uma das inúmeras e pequenas incrustações num grão de areia dos oceanos.

Naquele pequeno mundo de dez mil centímetros, onde eu vivi durante 16 anos, havia tudo o que uma grande cidade precisa para ter seu nome inserido nos anais da história. Folclore, esportes, festas, tragédias, lendas, escândalos, bares, artistas e imigrantes que deixaram suas pátrias, fugindo das atrocidades das guerras ou da pobreza absoluta, e escolheram este cantinho da Zona Norte de São Paulo, que passou a ser a terra prometida para muitos peregrinos extenuados.

Pensem no sublime sacrifício de Dona Rosa e no livro que poderia ser escrito sobre sua vida. Nascida e criada na Hungria, ela tinha 18 anos quando a segunda guerra mundial eclodiu e seu namorado veio se despedir dela porque ele havia sido convocado para servir no front da Rússia. Ele morreu em batalha, mas sua descendência foi salva no ventre da jovem Dona Rosa, agora uma mãe solteira que foi acolhida pela irmã para poder criar seu filho.

A guerra terminou, mas as privações, as agruras e as aflições não. Sua irmã adoeceu e, no seu leito de morte, ela fez Dona Rosa prometer que ela se casaria com seu marido e o ajudaria a criar seus quatro filhos. Dona Rosa cumpriu sua promessa, uniu-se em matrimônio com seu cunhado sem amá-lo e, em seguida, deixou a Europa para formar uma grande família numa insignificante Rua da Água Fria. E nesta rua ela criou seu primeiro filho órfão de pai, seus quatro sobrinhos e os quatros filhos brasileiros que teve com o marido de sua irmã.

Pensem na incrível reviravolta na vida de Dona Encarnacion e no livro que poderia ser escrito sobre ela. Sua mãe levava uma vida paupérrima na Espanha. Tinha que lavar roupa para os outros e servir de ama-seca para as madames da aristocracia. Um de seus patrões a engravidou e a patroa, revoltada, exigiu a expulsão imediata da prostituta. O patrão concordou, mas impôs que a menina que nasceu daquele descuido extraconjugal com uma vassala fosse criada na sua casa, como sua filha legítima, pois era seu sangue.

Dona Encarnacion tinha uma vida de princesa. Frequentou as melhores escolas da Espanha. Vestia roupas finas. Tinha aulas particulares de música e balé e desfrutava de todas as mordomias e regalias que só os milionários sabem descrever.

No entanto, sua realeza terminaria aos 16 anos quando seu pai adoeceu e faleceu e seus meios-irmãos cuidaram para que um advogado tirasse seu nome do testamento. A filha bastarda foi jogada na rua e passou a conviver com a miséria de sua mãe e seus outros meios-irmãos.

Dois anos depois, com apenas 18 anos, uma mão na frente e outra atrás, mas com muita bravura, Dona Encarnacion embarcou num navio rumo ao Brasil e, durante a viagem de mais de um mês, conheceu o José, sem lenço e sem documento como ela, e com ele se casou, se estabeleceu no interior de São Paulo e, juntamente com outros imigrantes, ajudou a construir a cidade de São José do Rio Pardo, lar de Euclides da Cunha.

Doze anos depois, José e Encarnacion resolveram se arriscar na cidade grande e fixaram residência na mesma Rua Corneteiro Jesus, da Água Fria, onde Dona Rosa morava e, assim como a Dona Rosa educou seus nove filhos e lhes deu um futuro no Brasil, Dona Encarnacion também deu aos seus nove filhos brasileiros uma vida repleta de felicidade e uma prosperidade que não poderiam ter no velho continente.

Pensem nestas pessoas e no que Olavo Bilac escreveu: Há numa vida humana cem mil vidas, Cabem num coração cem mil pecados.

Pensem que há numa vida humana um sem-número de palavras para descrevê-la, e cabem numa pequena via pública povoada por tais vidas humanas um universo de histórias fascinantes para se contar.

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