Bob, um cão voador pelas ruas do Jaçanã

Ao longo de nossa vida nos deparamos com personagens pitorescos que ficam gravados em nossa memória justamente por serem diferentes. Isso acontece com pessoas e até mesmo animais.<br><br>Assim, vou contar sobre um cão chamado Bob que circulou por várias ruas do Jaçanã durante muitos anos.<br><br>Bob foi doado ainda filhote ao Sr. Antonio (Sr. Tuna), conhecido descendente de portugueses e morador antigo do Jaçanã. Num misto de fox paulistinha e SRD (sem raça definida), nas cores preto e branco, Bob tinha todas as características de um fox, só que baixinho e gordinho.<br><br>Sr. Antonio morava na Rua Tanque Velho e trabalhava numa confecção da família localizada na Av. Jaçanã. Diariamente fazia, a pé, o percurso casa-trabalho-casa e Bob o acompanhava, sempre no mesmo ritmo e com passadas firmes; era um fiel companheiro do Sr. Antonio e assim aprendeu o trajeto de casa até a loja CarySports.<br> <br>Com o passar dos anos, o Sr. Antonio comprou uma Pampa e às vezes ia de carro ao trabalho e seu fiel companheiro ia no banco do passageiro. Porém, Bob já havia aprendido o percurso e começou a andar sozinho pelas ruas do Jaçanã para chegar ao seu destino. À vezes ele até mudava seu trajeto, conhecendo novos caminhos.<br><br>Bob acabou se transformando numa figurinha típica do bairro. Parava e esperava o semáforo ficar vermelho para os carros permitindo que ele atravessasse a movimentada Avenida Guapira. Só usava a faixa de pedestres, como se tivesse plena consciência do que fazia, parava em frente ao jornaleiro que sempre lhe dava um doce, sentava um pouco, via o movimento e seguia.<br><br>Nas redondezas todos o conheciam: o jornaleiro, o farmacêutico, os funcionários de um posto de gasolina, da casa de móveis, da imobiliária, as pessoas que esperavam ônibus no mesmo horário ficavam intrigadas ao vê-lo atravessar a avenida tão tranqüilamente e com a segurança de seus passos firmes. Alguns até davam um pedacinho de doce ou alguma guloseima e ele já ficava amigo.<br><br>Ele criou tal autonomia que ia e voltava da loja quando queria e Sr. Antonio só se preocupava quando ele começava a demorar.<br><br>Certo dia, o Sr. Antonio saiu de casa após o almoço e não encontrou o Bob. Pensou que provavelmente estaria na loja e teria saído antecipadamente a ele.<br><br>Tirou o carro da garagem e seguiu em direção ao trabalho, porém o semáforo da esquina da Rua Tanque Velho com a Avenida Guapira estava vermelho e Sr Antonio teve que parar o carro.<br> <br>O sol estava muito forte e o calor era insuportável, motivo que o fez abrir os vidros da Pampa.<br><br>De repente um barulho e quando Sr. Antonio olhou viu o Bob sentado ao seu lado. Ninguém sabia explicar como ele entrou pela janela do carro indo sentar no banco do passageiro. O fato foi muito comentado por toda a família, na loja e na fabrica.<br><br>Durante muito tempo Bob fez isto quando tinha preguiça de ir a pé. Ele esperava a Pampa parar e entrava vidro adentro; Sr. Antonio levou muita buzinada nos ouvidos, pois independente do semáforo estar aberto ou fechado para carros, ele parava para o Bob entrar.<br><br>Com o passar dos anos Bob ficou mais velho e não conseguia mais fazer isso e só ia de carro mesmo. Ele tinha acesso livre por toda a confecção e loja e os funcionários e fregueses o consideravam como mascote do lugar.<br><br>O Sr. Antonio acabou se mudando para Fernandópolis e Bob foi junto, porém, pouco tempo depois ele morreu.<br> <br>Ninguém sabe se foi de velhice ou saudades das andanças pela Avenida Guapira e ruas do Jaçanã.<br><br>Bob foi um bom cão e deixou saudades. Com certeza muitos da região se lembram dele. Sempre que passo no cruzamento da Avenida Guapira com a Rua Tanque Velho lembro-me do pequeno cão voador.<br><br>e-mail do autor: [email protected]