Estamos chegando a mais uma Semana Santa. Aí minha memória se volta ao tempo da metade do século XX. Sim, porque justamente no ano de 1950 estávamos em pleno ano santo, assim denominado por causa do congresso eucarístico internacional realizado no Rio de Janeiro.<br><br>A Semana Santa, desde após o Domingo de Ramos, já na segunda-feira, eram dias praticamente santificados. O povo levava ao pé da letra o ritual da igreja católica. O respeito já vinha há mais de quarenta dias antes, quando a terça-feira de carnaval encerrava o tríduo de Momo. E isso acontecia à meia-noite em ponto da terça-feira gorda de carnaval.<br><br>Já na quarta-feira as pessoas estavam indo à igreja para tomar cinzas na testa.<br><br>Era um respeito ao calendário católico por perdão de qualquer exagero nos três dias de folia. Todas as imagens já começavam a ficar cobertas com um pano roxo, que eram retirados depois da meia-noite da Sexta-Feira Santa, já entrando no sábado de aleluia, que depois foi denominado de Sábado Santo.<br><br>Naqueles quarenta e poucos dias que chamávamos de quarentena, ou quaresma, havia um silêncio muito grande, e as emissoras de rádio, num profundo respeito, tocavam músicas clássicas e suaves; havia também programas em que se rezava a Ave Maria todos os dias, às seis horas da tarde.<br><br>A Semana Santa começava com o Domingo de Ramos, quando todos iam à missa dominical com um ramo de oliveira, ou um outro ramo qualquer, para ser benzido na missa de Ramos, e depois de seco aqueles ramos serviam para serem queimados como incenso, nos dias de chuva que tinham raios e trovões que cruzavam o céu, causando muito medo nas pessoas. Era um tempo de muita fé.<br><br>Passado o Domingo de Ramos, na segunda-feira tinha início a Via Sacra, quando percorríamos as treze estações simbolizadas pelos quadros contendo as passagens de Cristo rumo ao calvário. A repetição das mesmas palavras, em que mudava somente o número da passagem de um quadro para o outro, era um ritual bonito que mostrava o duro caminho de Cristo, e o povo rezava e cantava: Pela via dolorosa, sua mãe tão piedosa… e mais adiante o puxador dizia, no segundo mistério… Um pai nosso e dez Ave Maria, até chegar o mistério seguinte.<br><br>Embora cansativa e repetitiva, aquela oração era um bálsamo a quem participava. Confesso que a gente saía com o espírito bastante leve.<br><br>Na quinta-feira a solenidade já era bem mais forte. A partir do meio dia já se cultuava a entrada de Cristo na cruz, e as igrejas católicas estavam com muita gente, aqueles que podiam. Os que estavam trabalhando tinham a recomendação de se lembrarem daquele horário e fazerem uma oração, para lembrar o momento em que Cristo seria judiado na cruz, e que Pilatos lavava as mãos e Barrabás era aclamado como gente boa em detrimento a Jesus, o sublevador ideológico de seres, o que era uma ameaça aos governantes.<br><br>Nos teatros de diversas igrejas, havia a interpretação da paixão de Cristo por parte de “artistas” da própria comunidade paroquial, aquele que frequentava aquela igreja. Gente que nunca havia pisado num palco lá estava fazendo um bonito papel, depois de muitos ensaios que os padres davam exaustivamente, e com muita paciência para esse dia sagrado. Isso era comum na igreja de Santa Teresa do bairro do Itaim Bibi, naqueles bonitos anos 1950.<br><br>Já no final da década de 50, eu era participe da congregação Mariana da igreja do Divino Salvador, de Vila Olímpia, e vi bem de perto essas comemorações. Bem de perto mesmo, já que eu era um autêntico contrarregra, usando o termo de radialistas.<br><br>Na quinta-feira à noite tinha a solenidade do lava pés. Quando o padre imitava Jesus ao lavar os pés dos apóstolos. Doze homens da comunidade da paroquial e que eram assíduos participantes das missas dominicais. Eles tinham seus pés lavados e secos pelo padre.<br><br>Depois vinha a solenidade à meia-noite, quando uma enorme vela de um metro de altura e uns quinze centímetros de diâmetro era acesa, e, para isso, as luzes da igreja tinham de ser apagadas, e essa já era uma das primeiras tarefas que eu tinha como “contrarregra”. Essa solenidade ia até uma hora da manhã já na Sexta-Feira Santa.<br><br>Nesse dia, o mais santificado do culto católico, o respeito era total. As pessoas não faziam nada. Nem a casa era arrumada. O almoço era todo de comida branca. Macarrão alho e óleo, com sardinha em conserva, refrigerantes como bebida. Molho vermelho e carne, nem pensar em comer. Vinho não se tomava, pois dessa maneira você estava comendo a carne e tomando o sangue de Jesus.<br><br>Para nós, crianças dos anos 1950, era uma tortura essas exigências. Não podíamos jogar bola, porque a cada chute que dávamos estávamos chutando a cabeça de Jesus, segundo nossas mães. Era uma fé inabalável naquelas coisas. E todos respeitavam.<br><br>Na congregação Mariana, já com dezoito anos, se aprendia que esse era um dia de muito sacrifício e tínhamos de nos abster das coisas que mais gostávamos de fazer. Era um sacrifício gratificante para o espírito, dizia seu Faustino, um dos instrutores da congregação.<br><br>Ficar esse dia sem fumar era um sacrifício recomendado. Para os mais viciados no fumo era uma autêntica tortura.<br><br>Eu, por exemplo, aguentava até as 22 horas daquela sexta-feira e, mesmo com o maço previamente guardado em casa, a gente ia na base do simidão. Muita coisa deixava-se de fazer, relacionamento sexual era outra tentação que devíamos tirar da cabeça, tanto real como virtual. Até aí, tudo bem, afinal o mundo não ia acabar no sábado de aleluia.<br><br>Durante todo o dia de Sexta-Feira Santa, o corpo de Cristo ficava exposto na igreja do Divino Salvador, e para a comunidade de Vila Olímpia e adjacências a visitação era continua. Milhares de pessoas se deslocavam o dia todo, e ao passar pelo esquife de Jesus dava o seu quinhão para a igreja, já que a cesta de vime ficava no chão ao lado do altar.<br><br>Muitas pessoas colocavam o seu dinheiro em nota e retiravam uma moeda divisionária, como simpatia, ou coisa que o valha. Isso se repetia todos os anos.<br><br>Enfim chegava o momento mais esperado por todos: a procissão. Quando a noite estava chegando, brotava gente por todos os lados. A procissão saía sempre às 19h30min, e tinha o seu percurso saindo da igreja, descendo a Rua Casa do Ator, virando à direita na Rua Nova Cidade, depois Rua Quatá, subia até a Rua Baluarte, descia a Gomes de Carvalho, entrando na Ribeirão Claro e novamente a Casa do Ator, já em frente à igreja.<br><br>Durante o percurso, nada de silêncio. Oração em voz alta e cânticos: “Queremos Deus, homens ingratos…”. Para carregar o caixão contendo o corpo de Cristo, havia uma disputa bem grande. Todo mundo queria ajudar a carregar o caixão. O revezamento era muito grande e uma pessoa chegava a pegar no varal do caixão mais de três vezes.<br><br>A cada esquina a procissão dava uma parada, porque dona Emilia Cavalieri, que simbolizava Verônica, cantava com sua voz de soprano o cântico correspondente àquele ato. Com sua voz forte e lenta, ia desenrolando o pano que mostrava a efígie de Jesus com a coroa de espinho sangrando sua testa.<br><br>E eu, novamente como contrarregra, era o felizardo em ouvir bem de perto as quatro vezes que ouve a parada para o cântico, por ter que segurar o microfone para que o carro de som captasse sua voz. Era o momento mais emocionante da procissão.<br><br>Ao chegar no pátio da igreja havia os discursos finais, e aí começava o nosso trabalho em recolher as coisas e fechar a igreja.<br><br>No caminho de volta, já víamos muita gente fazendo o Judas para marretar no dia seguinte. Um ato que se tornou tradicional na baixada do Glicério, onde tudo acabava em confusão.<br><br>À meia-noite do sábado tinha uma missa que ia pela madrugada de domingo de Páscoa.<br><br>Aí se fazia outra procissão. Era a procissão do encontro. Aliás, eram duas procissões. Uma em sentido contrário à outra. A que tinha a imagem de Jesus e outra com a imagem de Nossa Senhora da Conceição, o encontro se dava bem em frente à igreja. <br><br>Muita gente era pega de surpresa, e mesmo de pijama vinham ao portão em plena madrugada, para ver ela passar, com as pessoas segurando velas acesas, numa época de pouca iluminação pública. Ficava muito bonito, principalmente quando havia um aclive íngreme e quem estava na parte baixa da rua tinha um espetáculo maravilhoso.<br><br>Hoje são novos tempos. Na quinta-feira Santa as rodovias já estão congestionadas, todos vão passar a Semana Santa na praia ou campo.<br><br>e-mail do autor: [email protected]